quarta-feira, 28 de setembro de 2016

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O que é o desgosto? Talvez tristeza. E a tristeza?


A tristeza é um desespêro
uma falta sem consolo,
o desatino e o destempêro
de sentir o corpo sem miolo.

A tristeza é dor permanente
ansiedade soluçante, convulsiva.
Pavor de catástrofe eminente
na garganta falta de ar aflitiva.

Arfar de coração descontrolado
boca aberta em vão inspirar fundo
sobressalto no peito cansado 
vertiginosa cabeça perdendo mundo.

Uma febre alucinada, um abandono 
um mal-estar doloroso em todo o ser,
não conseguir dormir tendo sono,
solidão sem fé de sobreviver.

Sem destino apenas querer fugir
na fuga não saber tomar caminho
ou fazer caminho e progredir,
a tristeza é se saber sozinho. 




 

 

domingo, 11 de setembro de 2016

Victor Jara a árvore do esquecimento para que nos esqueçamos de esquecer o golpe de estado de 11 de Setembro de 1973 no Chile, em que um governo democrático foi destruído a ferro e fogo pelos interesses do capitalismo, do neo-liberalismo, da alta finança internacional e dos Estados Unidos da América. Mesmo assim naquela altura ainda não se tinha chegado ao terror das guerras dos dias de hoje que contam com a nossa silenciosa cumplicidade.







En mis pagos hay un árbol, 
que del olvido se llama, 
al que van a despenarse, vidalitay,
los moribundos del alma.
 

Para no pensar en vos, 

bajo el árbol del olvido,
me acosté una nochecita, vidalitay, 
y me quedé bien dormido.



Al despertar de aquel sueño

pensaba en vos otra vez, 
pues me olvidé de olvidarte, vidalitay, 
en cuantito me acosté.

 Poema de Férnan Silva Valdés
 Música de Alfredo Ginastera


















terça-feira, 16 de agosto de 2016

"Poema da Pedra Lioz" um hino aos construtores escrito por António Gedeão, com música de José Niza, aqui cantado por Samuel.



Poema da pedra lioz

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na brutidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca… truca…
Lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada românica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de surrobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.

Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca… truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.

António Gedeão



Os Índios da Meia-Praia. Uma ode aos construtores.


Na década de 50, dezenas de pescadores originários de Monte Gordo chegaram a Lagos, na outra ponta do Algarve, à procura de trabalho. Na Meia-Praia havia peixe mas faltavam casas. Improvisaram-se cabanas colmo nas dunas... o aspecto valeu-lhes a alcunha de Índios, os Índios da Meia-Praia.
Quando se deu a revolução de 25 de Abril de 1974 já só restava uma cabana de colmo. Todas as outras tinham sido transformadas. Eram barracas de zinco, com os dias contados porque o governo da altura queria acabar com as barracas no país.
Através do serviço ambulatório de apoio local, conhecido como projecto SAAL, o governo cedia o terreno, o apoio técnico e parte do dinheiro, se as populações avançassem com a mão-de-obra.
Ansiosa por deixar as barracas, a população organizou-se em turnos. Quando os homens estavam no mar, eram as mulheres que trabalhavam nas obras. Havia duas regras: as habitações tinham de começar a ser construídas ao mesmo tempo e todos teriam de ajudar na construção de todas as casas.
O carisma dos Índios da Meia-Praia chegou aos ouvidos de um realizador de cinema. António da Cunha Telles decidiu documentar a transformação que estava em marcha. O trabalho deu origem à música de Zeca Afonso.


Jornalista: Conceição Ribeiro
Imagem: Ricardo Soares
Edição: João Nunes
Produção: Madalena Durão; Diana Matias
Coordenação: Isabel Horta
Direcção: Alcides Vieira





sábado, 6 de agosto de 2016

O risco de desenhar com uma ponta de grafite numa tabuínha de madeira.




Para quem está habituado ao papel, a superfície dura da madeira resiste para além do esperado. A resistência que oferece desafia o ímpeto do traço. Convida a mão a ser forte e a riscar livre. Selvagem e livre. Já não é voar aquilo que interessa mas sim sulcar. Sulcar como quem lavra ou navega. O vento não está mais no traço mas na ponta do estilete, e no olhar. A velocidade aumenta e assim aumenta o sobressalto. O atrito desigual da fibra da madeira que o afagar do lenho pela lixa não conseguiu aplanar, chega ao seu clímax e a aguçada ponta de grafite parte-se. O lápis afocinha na madeira e a mão vai de rojo arrastada no seu movimento. A situação é dramática. O desenho pára. O pensamento cai em si e não sabe o que fazer. Repara que a madeira do lápis marcou a madeira da tabuínha. Um braille incolor testemunha o acidente In Situ. A mancha esfumada do traço pela fricção do aterrar da mão contra a madeira. O traço do arrasto do bico partido que continuou desenhando, como rabo de lagartixa que foi amputado e continua debatendo-se com propósito, como se tivesse vida. E ainda, uns milímetros mais além, a poalha preta da fractura; alguma dela incrustada na madeira, outra projectada pela ruptura, esperando ser varrida pelos dedos do desenhador para dentro ou para fora do desenho.

sábado, 23 de julho de 2016

O " Medo"- Reinaldo Ferreira um grande poeta que continua desconhecido. Aqui pela Voz de Amália com a Música de Alain Oulman.

 Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira




Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!


E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.


Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?


Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Conversas rasteiras.


domingo, 10 de julho de 2016

Palácio dos Inválidos, Paris, França.

 


















A relevante cúpula que permite avistar de longe o conjunto de edifícios que constituem o chamado Palácio dos Inválidos, não revela ao observador distante o que está no seu miolo. Senti a mesma sensação estranha que o forasteiro com fome tem ao avistar um fruto exótico. As dúvidas surgem. Será venenoso? Será comestível? É isto casca ou polpa? É isto caroço ou miolo? 
Já nas imediações do edifício da cúpula, um pátio de hospital abrigava um grupo vestindo os informais pijamas. Seriam aqueles os "Inválidos"? Lá estavam, homens novos e velhos, amputados de membros encostados aos muros solares do mês de Julho, uns fumando o seu cigarro outros apesar do sol confortando-se no seu capote. Prossegui procurando entrada para acesso à cúpula.
Cheguei a outro pátio com uma entrada larga. Pendões anunciavam  exposição de armaduras. Paguei entrada e recebi o primeiro choque de espanto. Por toda a sala e salas seguintes, séculos de guerras e batalhas estavam representados por metálicos casulos desconhecidos. Centenas e centenas de armaduras expunham-se imponentes, elevando-se do chão até 10 metros de altura como crisálidas adormecidas no tempo. Lorigas e catrafactas, cotas de malha de trama diversa, elmos e capacetes, testemunhavam a dureza da guerra a curta distância. Provavam o valor precioso daqueles guerreiros e a necessidade de os proteger para que do estêrco da lama e do sangue emergissem incólumes nas suas armaduras refulgentes erguendo-se nos seus brilhantes cavalos couraçados de escamas e placas, resplandecentes e imortais como deuses. 
A evolução das "armas brancas", de lâminas nobres, estava descrita ali assim como a maneira como essa brancura foi turvando com os séculos à medida que turvavam os ideais dos seus patrocinadores. 
Dos piques e dos chuços, a arte de matar a distância evoluiu para a besta. A besta permitia a bestialidade de um peão matar um cavaleiro couraçado. A potência com que a flecha era disparada permitia furar a armadura e derrubar o nobre cavaleiro imortal. Obra do diabo coisas da bêsta. Um Papa representante de Deus na Terra chegou mesmo a fazer uma proíbição das bestas. Como poderia a bêsta de um camponês matar com a sua besta um cavaleiro, representante do representante de Deus na Terra?
As armas de fogo deram cabo disto tudo e a artilharia como excelência da morte à distância também.
No meu caminho pelo Palácio dos Inválidos lá cheguei ao que para os exércitos é o equivalente das armaduras. As fortalezas com muralhas dispostas em estrêla de maneira a ricochetear os projécteis contra elas disparados. Miniaturas modelo entre outras, de fortalezas planeadas por Vauban, um engenheiro militar que chegou a marechal de França por ter desenhado este tipo de fortalezas resistentes à artilharia. Cá por Portugal temos fortalezas deste tipo em Valença do Minho, Almeida, Elvas,... Que eu saiba o Vauban não andou por cá e sendo verdade que a Fortaleza de Valença começou logo a ser reconstruída em 1640 neste estilo dito Vauban ainda o Vauban era menino, naturalmente andaram por cá outros de França que já saberiam aquilo que tornaria o Vauban famoso. Mas nada de mais, o Museu de Marinha que conheci em Paris desta época em que estive no Palácio dos Inválidos, começava no século XVII. Dois séculos de navegações portuguesas eram obliteradas sem dó nem piedade. De qualquer maneira não tem importância, os portugueses sempre gostaram dos franceses. 
Para não me alongar mais; no miolo da cúpula deste "Hôtel des Invalides" está um sarcófago onde repousa "O Imperador". Esculpido em pedra de quartzito vermelho lindíssimo e granito verde, um túmulo que paradoxalmente consegue ser simples e sumptuoso. Talvez seja esta a definição para o luxo: Simples e sumptuoso. Quando chegamos aos varandins daquele claustro  majestoso só podemos baixar a cabeça quando olhamos para o mausoléu onde Napoleão repousa em cinzas. Uma vez naquele piso que foi escavado para albergar os restos mortais de Napoleão se os quisermos olhar temos de olhar para cima, para o céu. O mesmo Céu de Deus e das Galáxias.
Haveria tanto ainda para contar sobre o Palácio dos Inválidos de Paris: 
Sobre as salas dedicadas à carnificina da Grande Guerra, a Primeira Guerra Mundial. Na altura em que lá estive o esforço português nessa guerra apenas acidentalmente referido, não era minimamente perceptível.
Sobre o cavalo branco embalsamado do "Imperador Napoleão", o imperador teve dezenas de cavalos brancos.
Fico por aqui e nada mais digo sobre os "Inválidos" de Paris. Trouxe de lá uma caneca. Na altura eu praticava o disparate de fazer colecções. Coleccionava canecas. Trouxe a caneca de "Les Invalides" por ter percebido que era um souvenir pouco apetecido para trazer de Paris de França. Trouxe também memórias dessas de coleccionar e classificar. Afinal a cultura é coleccionar e classificar. Enfatizar umas coisas e obliterar outras. Construir Palácios para que a memória perdure e se afirme. Mesmo que sejam palácios inválidos.


 
 

terça-feira, 5 de julho de 2016

As Árvores voam!

Fiz este desenho/pintura, em 2003. Foi para uma exposição que fazia a proposta de reflexão sobre o verdadeiro e o falso como valores absolutos.
A imagem é um símbolo da imaginação. Constitui um desafio face à frase pouco intuitiva "as árvores voam", aparentemente absurda como interrogação e aparentemente falsa como afirmação.
A imagem representa uma semente de tipuana.