sexta-feira, 25 de maio de 2018

Emil Cioran editado pela Letra Livre

Parece que hoje abre a Feira do Livro de Lisboa. Além dos gelados e dos refrescos, da ginja de Óbidos em copo de chicolate (dá-me jeito dizer chicolate), da bifana e do burguer de carne porca mastigada ou vegetariana para meninos e velhinhos sem dentes como eu... além das esplanadas para as demonstrações de robôs de cozinha e do chô-cuquing... parece que também há livros, e como é sabido um livro nunca vem só.





























"Com certezas, não pode haver estilo: a preocupação de dizer bem é o apanágio daqueles que não conseguem adormecer numa fé. À falta de um apoio sólido agarram-se às palavras -simulacros de realidade; enquanto os outros, fortes nas suas convicções, desprezam a aparência e se refastelam no conforto da improvisação."

Emil Cioran - Silogismos da Amargura

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Karl Kraus - Os últimos dias da Humanidade.




Um outro livro de Karl Kraus que anda cá por casa. Recentemente encenado no Teatro Nacional São João.
Um monumento, um marco no teatro uma vez que o próprio Kraus achava que a obra não deveria ser encenada.
As traduções para língua francesa e para língua inglesa só se fizeram cabalmente em 2004 e em 2015 respectivamente.


Karl Kraus - Aforismos

É muito tentador fotografar os pratos de alimento do restaurante. Têm sempre muita cor e suscitam uma certa gula e até uma espécie de volúpia transmutada. Porque resisto a tentações reproduzo então o desenho na toalha da mesa do almoço tardio, feito quando ainda não sabia ir ter um encontro surpresa com o Karl Kraus e os Seus "Aforismos" generosamente publicados pelo Vasco Santos da nova editora VS.


O grifo dos sonhos.


Maurice Andre interpreta Telemann Concerto em Ré (in D Major) - Adagio

sábado, 19 de maio de 2018

Mas hoje também faz anos que nasceu Mário de Sá-Carneiro aqui maravilhosamente cantado por Teresa Silva Carvalho

Casamento de princeses e de princesas.

Verdadeiramente memorável o dia de hoje em que houve casamento de princeses e de princesas.
É verdade que o Vasquinho da Anatomia nos preveniu em devido tempo que chapéus havia muitos. Mas eu que sou um pobre plebeu provinciano nunca tinha visto tantos. Chapéus bonitos é certo, que podiam ser do século passado, ou até do outro anterior, mas claro está sem nunca atingirem a graça superlativa dos capelos de Carmen Miranda.
Pena é que os cavalheiros convidados tirando um ou outro boné militar uma ou outra cartola aparecessem quase sem excepção em cabelo, em capachinho ou simplesmente em careca.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Feliz aniversário Maxim! Polina Osetinskaya plays Schostakovich Piano Concerto # 2




A profundidade e a ironia da música de Shostakovish pode ser apreciada aqui nesta obra que dedicou ao 19º aniversário do seu filho Maxim, que nasceu neste dia 10 de Maio de 1938. A partir do minuto 7 com imagem filmada da interpretação da extraordinária Polina, começa o segundo andamento, andante, que se funde no allegro do  terceiro andamento. O compositor referiu-se a ela como uma obra sem importância. Mas é bem audível que isso não é verdade.

sábado, 5 de maio de 2018

Homem com barbas.


Desenhar com o lado errado do cérebro.

Este talvez tenha sido com o lado certo do cérebro.


Desenhar com o lado certo do cérebro.

Há alguns anos foi popularizada a ideia da dominância dos hemisférios cerebrais no comportamento individual. Haveria pessoas mais influenciadas por um dos lados, por exemplo o lado direito que seria o da criatividade;  e outras, pelo o lado esquerdo, o da racionalidade. 
Em 1979 saíra já o livro de Betty Edwards que nunca teve tradução em Portugal, " Drawing on the Right Side of the Brain" de modo que abusando desta noção ou talvez adaptando o conceito costumava dizer que há desenhos que se fazem com o lado direito do cérebro mas outros são feitos com o lado esquerdo. Hoje que tudo isto está ultrapassado verdadeiramente o que digo é que alguns desenhos são feitos com o lado certo do cérebro e outros com o lado errado. 



















Este nitidamente foi com o lado errado.




sexta-feira, 4 de maio de 2018

Arte pela morte contra a Morte.




Num machado de mão talhado há 250 mil anos num sílex, foi preservada uma concha fóssil que o integrava. 


Ás vezes a Arte não é só fazer. É também preservar o que se encontra. É saber não destruir.

O belo é a perfeição que se reconhece sem tempo nem explicação.

terça-feira, 1 de maio de 2018

"Então e qual é o segredo?" -Os direitos de autor e a transmissão do conhecimento.




"-Então e qual é o segredo?
-O segredo não o posso revelar!"

Nos meus tempos de operário metalúrgico, inicialmente trabalhei como operador de máquinas rectificadoras de peças em série capazes de criar orifícios cónicos cuja variação entre o menor e o maior diâmetro não ultrapassava os 8 mícron. Por motivos de produção e contenção do desperdício de peças para sucata, determinados ajustes nas máquinas só podiam ser feitas pelos afinadores autorizados, havia mesmo uma categoria profissional assim designada. Uma das afinações consistia numa alteração de translação de um veio em movimento que se fazia pela regulação de três parafusos. Um dos afinadores cioso do segredo, com a bata desabotoada e de braços abertos fazia uma cortina de forma a impedir que a sua afinação fosse percebida. Como se isso não bastásse apertava e desapertava parafusos mortos e sem nexo para o objectivo pretendido. Quando uma vez o interpelei sobre aquela desnecessária coreografia exclamou " Ah! Se calhar querias ficar a saber tanto como eu?!"




A cultura não tem a ver com diálogo tem a ver com a prevalência do mais forte e a submissão do mais fraco.

A iniciação pressupõe um caminho sem retorno de elos e amarras, de compromissos que impedem o iniciado de revelar ao próximo um conhecimento que enquanto for segredo só o beneficia a ele e aos que têm estatuto semelhante.


O segredo por vezes reside em não revelar algo que simplesmente não existe e por isso não se pode revelar. 


A elite só o será enquanto esta convenção justificar o seu poder.
O poder é legitimado por motivos mágicos de transcendência. Um poder que por vezes se diz vir directamente de Deus. De uma força maior como um conhecimento superior, ou uma tecnologia mais avançada. 

É bem conhecido o terror que os democratas têm de que o "poder caia na rua". A democracia legitimada na Praça, é ilegítima na Rua. Na Praça a multidão é estática e é controlável, na Rua a multidão desloca-se, Por mais pequena que seja a rua a multidão encontra-se em movimento e é dificilmente controlável e contabilizável. 

Um jornalista, também professor, ocupou durante muitos anos vários programas de comentário político até que chegou a uma presidência de república. Esse senhor para menosprezar o poder que teriam as manifestações de rua e o número de manifestantes em protestos sucessivos. Banalizando essa afirmação de cidadania fez a seguinte comparação: 
O que é isso de 50 mil ou 60 mil manifestantes, a lotação do Estádio de Alvalade, o Estádio da Luz cheio? Eles enchem quase todas as semanas.




Começamos na escola a aprender o nosso lugar. Caso a família ainda não nos tenha ensinado. 
A cadeira na frente junto à secretária do professor, a cadeira ao fundo, nesta aula não há lugares fixos. A Praça e a Rua são reflexos disso. Os parlamentos também. São câmaras, pequenas praças de lugares sentados fixos. Salas de aula de uma representatividade encenada e codificada. Aqui os nobres, ali os plebeus. Aqui os homens, aqui também as mulheres. Aqui os Doutores, aqui os sem título. Este sistema de validação por título é tão importante que a falsificação se faz por todo o lado Portugal, Alemanha, Holanda...
O sistema de castas perdura, mas não só na Índia.

Esta conversa elíptica que leva a lado algum nem vem a propósito do Primeiro de Maio. É mais para dizer que por muito que me custe evitarei ao máximo ferir os direitos de autor. Deixarei de divulgar vídeos com filmes ou música ou palestras. Reparei que muitos desses vídeos desapareceram por suposto conflito com os direitos de autor e não era essa a minha intenção. Por vezes coloco músicas das quais tenho o disco mas não o vídeo que acompanha a música. Quando parece importante coloco os créditos mas ultimamente reconheço que não o tenho feito com tanto rigor.
Mas acabou-se esse risco de abuso que cause dano ou melindre alheio.







segunda-feira, 23 de abril de 2018

Viva Prokofiev! -Sergei Prokofiev - Sinfonia No.1 em Ré maior, Finale: Molto vivace



A estreia desta sinfonia faz hoje anos.
Este quarto andamento não sei se é um ciclone que rodopia e levanta no ar aves, aromas de flores e odores de terra húmida; ou se é um galope por prados verdes a perder de vista. Não sei se é um rio primaveril que nasce em remoínhos do degêlo das neves e que canta montanha abaixo entre fragas e lameiros; ou se é um torvelinho de crianças correndo numa praia. Mas sei que é um hino de alegria cheio de vitalidade com uma energia criadora ilimitável. 
Esta é uma das boas interpretações que me foi dado escutar. Igualmente gosto da interpretação de Gennady Rozhdestvensky conduzindo a Orquestra da Rádio e TV da URSS. 
A velocidade deste Molto Vivace é tão delicada que fácilmente é destruída por modas de valeris gergieves sempre a chicotearem o tempo e a impedir as notas de se ouvir.
Já agora uma lição do grande Celibidace mesmo para quem não fala alemão.



E o deleite de conduzir a perfeição:





Não havia livros na casa.


Pedia livros e traziam-me guloseimas: rebuçados com feitios de peixes... amêndoas de licor enfeitadas para parecerem um porquinho ou uma galinha. Amêndoas de açúcar mole a imitar ovos de Páscoa... Bombons... 

Pedia livros que era o que eu mais desejava e traziam-me guloseimas doces. E diziam-me "Olha que tu não peças nada à Dona Gigi!" 


"Que queres tu?" perguntava-me a Dona Bibi.

- "Quero histórias!".
"A  Bibi agora não tem tempo para contar histórias!"
- "Quero livros!"
- "Livres?" perguntava a Dona Gigi.


Pedia livros e traziam-me as futuras dores para os meus dentes.

Não havia livros na casa nem havia escova de dentes. E eu pedia livros. Não sabia que devia pedir também uma escova de dentes. Mas se a pedisse não adiantaria nada é certo.

Quando vinham de visita, a Gigi e a Bibi, traziam bolos para o chá. Costumavam também trazer as tais guloseimas, por vezes até caramelos ou chocolates. Poderiam perfeitamente entrar na livraria em vez de se ficarem pela pastelaria que ficava na mesma rua. Nem precisavam de muito andar ou carregar porque o "chófér" com boné de pala deixava sempre o espada preto estacionado à porta das lojas e encarregava-se de carregar os embrulhos.


- "Livros Gigi! Ele disse livros.

- "Livros? Mas ele ainda não sabe ler!


quinta-feira, 19 de abril de 2018

As compressas e os parafusos.



...Outra coisa ainda; nas oficinas metalúrgicas por onde passei, em que se praticava mecânica fina também se dispunha os utensílios e as ferramentas sobre um paninho verde (às vezes preto ou branco) à semelhança dos instrumentos cirúrgicos. Havia a chamada "boa-prática" que pomposamente agora chamam protocolo, de contar as ferramentas, as peças, e os componentes substituídos. Incluindo "porcas" que não deviam sobrar; desperdícios de trapo, vedantes de cobre, cartão ou neoprene, etc.
Para terminar...


quinta-feira, 12 de abril de 2018

O CEO e Yuri Gagarin.Vista do espaço a terra é azul.


Dizem que o Cosmonauta Yuri Gagarin, o primeiro ser humano no Espaço, em 1961, ao olhar para a Terra exclamou comovido:
 "A Terra é azul!"


Visto de perto o CEO não é azul.


domingo, 8 de abril de 2018

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Beatriz Cunha - Polígonos


Quando me questionaste sobre as tuas novas esculturas com aquela necessidade que só artistas criadores de coisa nova têm em se pôr em dúvida, disse-te:
"-Não sei! É muito novo para mim." Tinhas acabado um ciclo de peças figurativas, antropomórficas: corações, mãos, cabeças, rostos...
Nessa altura o meu enquadramento referencial não funcionou. Senti-me em queda livre sem  rede salvadora ou linha de vida. 
Depois dei por mim pairando, flutuando no espaço, sem Gravidade que me arrastasse numa colisão contra um alvo determinado. Imponderável como um cosmonauta.
"-São poliedros? São sólidos platónicos em desconstrução?" 


Ao ver as tuas novas peças, o meu olhar caminhava de um interior escuro para a luz do ar livre. Sofri essa momentânea falta de visão do ajustar da percepção que impede compreender o que se vê. 

Sem que tivesse dado conta, os teus “sólidos” continuavam as interrogações e a pesquisa que sempre conheci no teu processo criador e existencial. 
A  linguagem; aquilo que percebemos na obra de um artista como fazendo parte intrínseca do que está no seu âmago de maneira a que não o possamos confundir com um outro, era a tua linguagem.  Sim, era bem a tua linguagem que se afirmava naquelas peças aparentemente tão diferentes das anteriores.

O rio e a margem. O côncavo e o convexo. O que está fora e o que está dentro. As interrogações à própria percepção concretizavam-se naquelas arestas perante o meu olhar. O miolo e a concha. O que é o Ser e o que é parecer.  
Os vértices, as esquadrias, os diferentes planos determinavam continuidades, oposições e contradições. Contidas naquelas facetas deparei-me com o que entendemos ser a natureza humana, o que aceitamos em nós, o que toleramos, o que só vemos nos outros.

Como numa heteronímia urdias a trama complexa das maneiras diferentes de sentir. As charneiras que articulamos e nos articulam, as que deixamos paralisadas até se cristalizarem.
Naquelas superfícies tridimensionais são incorporadas muitas outras dimensões. O tempo afirma-se num roteiro de vestígios de construção e desmoronamento. Há faces que resistem e exibem a sua resiliência sem que a sua estrutura tivesse sofrido com o choque; outras, não conseguem esconder o impacto que as deformou até à rotura.
Naquelas peças vi então a procura do ser e do não ser, a abstracção máxima, a procura da forma da própria Alma.

sexta-feira, 30 de março de 2018

DUDU Rose (Sénégal Musique / Senegal Music)


Comprei o disco há mais de 20 anos. A gravação a partir do minuto 29 foi feita numa noite de lua cheia como a de hoje. Cristãos celebravam a sua Páscoa e Muçulmanos o final do Ramadão. O Maestro Dudu N'diaye Rose comandava os tambores. Viviam um momento único de comunhão que ficou registado no disco e neste filme. Há momentos irrepetíveis que têm o condão de nos recordar que a convivência é possível.

A espera da Prima


quarta-feira, 28 de março de 2018

Damien Hirst fala de Francis Bacon | TateShots





Há muitos anos vi uma grande retrospectiva de Francis Bacon, por essa altura vi também  peças de Damien Hirst, nomeadamente a peça conhecida por "Mother and Child".

A pintura de Francis Bacon que me parecia herdeira de Chaïm Soutine, repercutia em mim o desconforto de quem ficou na margem a observar uma violência incompreensível e injustificável. 
Nesse sentido ficar à margem era até um benefício misericordioso. Era o alívio de ter escapado a uma escolha sacrificial. No entanto esta marginalidade não me apaziguava o mau estar causado pela conivência e pelo conformismo. O sentimento quase infantil da criança que poupada ao castigo, pensa aliviada "ainda bem que não me calhou a mim" era insustentável perante a pintura de Francis Bacon.
Invariavelmente a sua pintura causava-me uma repulsa e um desconforto psicológico que me obrigava a reagir. 

As peças de Damien Hirst pelo contrário colocavam-me num estado embotado de sensibilidade por entrarem num referencial de percepção que é comum aos laboratórios e aos açougues. 
A desresponsabilização física e psicológica do interveniente é nesses sítios justificada por um bem maior. A eventual relutância ou remorso, tem absolvição por algo que é transcendente à própria decisão do interveniente em nome de um benefício superlativo: O sacrifício é necessário pela necessidade vital da nutrição do corpo, ou do alimento do espírito sob a forma de conhecimento e progresso. Mesmo que o interveniente o seja como simples espectador de uma exposição de arte contemporânea. 
Encontrei depois, descrições deste estado mental, nos testemunhos feitos por perpetradores que funcionaram e colaboraram em campos de concentração e extermínio e também nos testemunhos de vítimas sobreviventes. 
Estas pessoas que sobreviveram ao horror, foram corrompidas por ele e a sua condição de vítimas e carrascos, voluntários ou por omissão, são uma alegoria da vivência actual.
O cidadão enquanto habitante da polis; enquanto ser civilizado, com direito político; abdicou de ser sentinela, “whistleblower” como agora se diz, deixou de ser testemunha, e prefere deixar de ser observador. Prefere ser transformado em simples espectador, em consumidor e em utente.





domingo, 25 de março de 2018

As medicinas alternativas e o científico método BOGSAAT

Os falantes de inglês-americano têm um acrónimo BOGSAAT (Bunch Of Guys Sitting Around A Table) que traduzido seria; "Uma Malta Sentada à Mesa".

Infelizmente uma parte das "decisões científicas" são tomadas assim com uma malta sentada à mesa, e com a ajuda de estudos estatísticos dignos daquela anedota do par de amigos em que o comilão come as duas pernas do frango mas estatisticamente cada um comeu uma.

Vem a propósito dizer que a explicação do processo científico de funcionamento do ácido acetilsalicílico como bloqueador da dor era desconhecido até há pouco tempo. No entanto tinha sido patenteado com o nome de aspirina há mais de 100 anos.
Cientificamente era desconhecido o mecanismo como baixava a febre ou como era um anticoagulante do sangue apesar de já ser ser usado há mais de cem anos. No entanto a medicina tradicional que agora costumam chamar alternativa, sabia que as folhas do salgueiro (salix) de onde se extraiu o ácido acetilsalicílico serviam para o mesmo efeito.
Usadas desde a antiguidade como anti-inflamatório, para suprimir ou reduzir a dor e baixar a febre, as folhas do salgueiro não eram mezinhas de charlatão. Mesmo que não fosse possível explicar como actuava o seu efeito.

Invocar a ciência do cânone ocidental como a verdadeira em oposição a outras com praticas milenares como sendo embuste de curandeiros é um dogma tão totalitário como outro qualquer. A triste história do flúor, dos benefícios do fumo do tabaco, ou do combate ao colesterol são preocupantes factos em que o método científico foi posto ao serviço da acumulação de capital contra as populações com ou sem doença declarada. Uma estratégia de criar o doente crónico, um doente ideal que necessitará do medicamento enquanto viver.

quarta-feira, 21 de março de 2018

de pé


Hoje é dia da poisia e da arvém mas é também o dia da serra.




Hoje dia da poisia e da arvém,
dia em que tantos plantadores se prantam e tantos poetas se poisam fica aqui poisada a minha homenagem aos incansáveis motoserreiros que  livram as nossas cidades e as nossas serras dessas pragas que são as arvéns.







Ó motoserreiros que andais por caminhos ermos,
possais vós ao menos, serrar até aos extremos.
Serra acima, serra abaixo, tudo a serrar com moto,
salvai do relaixo bem cortai, velho lenho e tenro broto;
a eito cortai cerro; fundo podai, serrai, e desmatai;
matai mato e giesta e o que presta querer reverdecer
mas ai... o pinhal deixai e o eucalipal bem guardai
pois para a papa bem fazer no verão se há de acender
um grande São João e do céu helicóptero virá com a aviação
em grande procissão a brasa combater para nossa salvação.



-

serpes


terça-feira, 20 de março de 2018

A fé e a margem

Não acredito nos missionários da poesia
mas acredito nos que experimentam 
o peso das palavras
uma a uma

Acredito nos que acham e colhem o ouro,
doce e sumarento 
que oferecem os gomos de mais delicado sabor

Não acredito nos que se querem poetas
mas acredito naqueles que trazem
a navalha afiada no bolso;
que fatiam o pão e as maçãs de sabor metálico,
matam a fome aguçam o espanto das crianças órfãs
nos pequenos lápis de desenhar.

Não acredito na poesia
mas acredito na revelação contínua da palavra
como relâmpago e trovão
Acredito na brevidade da faísca e no eco
Acredito na paradoxal impermanência do vento
e na sua constância.
Acredito nas amuradas angustiadas
dos que partem e na diferença
dos que ficam em silêncio na margem.