quarta-feira, 6 de junho de 2018

Salvador Sobral | Mano a Mano. Maria do Rosário Pedreira fez o poema, Júlio Resende a música.






Por vezes quando ouço poemas de Maria do Rosário Pedreira como este, tão perfeitamente cimentados na música, lembro-me do Ary dos Santos. 
Esta música do Júlio Resende é uma balada ao estilo das modas alentejanas mas a luz que ele lhe transmitiu tornou-a resplandecente como um céu azul do Arco-da-Velha.
Salvador Sobral é genial e a interpretação ao vivo desta mesma canção na noite do festival da Eurovisão deste 2018 talvez seja ainda superior a esta gravação de estúdio.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A dor esdrúxula.


In Memoriam Paulo Rodrigues.

Nasceste no Primeiro de Maio e disse-te que o meu melhor amigo tinha nascido nessa data, com o Jorge eras a terceira pessoa que eu conhecia a nascer nesse dia.
Agora já não poderemos falar da pintura do Manuel Gamboa que também nasceu em Maio e vai a caminho dos 94 anos. 
Nem poderemos falar da aguardente de medronho e daquele perfume a flores que fica na boca quando ela é boa; nem do estranho vermelhão dos medronhos, cheio de amarelo pólen por dentro. Um vermelho sem verde dentro.
Não poderemos voltar a Moscavide onde gostavas da malga de sopa, do prego grelhado com alho, e do copo do vinho tinto. Mais um café e ficavas jantado.O tinto era bom. 
Não irei lá à casa do Algarve apesar da tua generosa insistência, fica para outra ocasião dizia eu. Sim ficará para outra altura.
Agora que na quietude e no espanto saíste neste último dia de Maio, nesta Quinta-feira de Corpus Christi quando se espalham flores pelo chão e o pão é verdadeiramente o Corpo de Deus apanháste-me de surpresa. A dor de cabeça atormentava-me e estava longe de pensar em alguma coisa mais, além de bigornas e martelos. 
Agora sem Bigornas e martelos, o que ficou no ar foi Zadig e Voltaire preto. Fugazmente leve.





sexta-feira, 25 de maio de 2018

Emil Cioran editado pela Letra Livre

Parece que hoje abre a Feira do Livro de Lisboa. Além dos gelados e dos refrescos, da ginja de Óbidos em copo de chicolate (dá-me jeito dizer chicolate), da bifana e do burguer de carne porca mastigada ou vegetariana para meninos e velhinhos sem dentes como eu... além das esplanadas para as demonstrações de robôs de cozinha e do chô-cuquing... parece que também há livros, e como é sabido um livro nunca vem só.





























"Com certezas, não pode haver estilo: a preocupação de dizer bem é o apanágio daqueles que não conseguem adormecer numa fé. À falta de um apoio sólido agarram-se às palavras -simulacros de realidade; enquanto os outros, fortes nas suas convicções, desprezam a aparência e se refastelam no conforto da improvisação."

Emil Cioran - Silogismos da Amargura

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Karl Kraus - Os últimos dias da Humanidade.




Um outro livro de Karl Kraus que anda cá por casa. Recentemente encenado no Teatro Nacional São João.
Um monumento, um marco no teatro uma vez que o próprio Kraus achava que a obra não deveria ser encenada.
As traduções para língua francesa e para língua inglesa só se fizeram cabalmente em 2004 e em 2015 respectivamente.


Karl Kraus - Aforismos

É muito tentador fotografar os pratos de alimento do restaurante. Têm sempre muita cor e suscitam uma certa gula e até uma espécie de volúpia transmutada. Porque resisto a tentações reproduzo então o desenho na toalha da mesa do almoço tardio, feito quando ainda não sabia ir ter um encontro surpresa com o Karl Kraus e os Seus "Aforismos" generosamente publicados pelo Vasco Santos da nova editora VS.


O grifo dos sonhos.


Maurice Andre interpreta Telemann Concerto em Ré (in D Major) - Adagio

sábado, 19 de maio de 2018

Mas hoje também faz anos que nasceu Mário de Sá-Carneiro aqui maravilhosamente cantado por Teresa Silva Carvalho

Casamento de princeses e de princesas.

Verdadeiramente memorável o dia de hoje em que houve casamento de princeses e de princesas.
É verdade que o Vasquinho da Anatomia nos preveniu em devido tempo que chapéus havia muitos. Mas eu que sou um pobre plebeu provinciano nunca tinha visto tantos. Chapéus bonitos é certo, que podiam ser do século passado, ou até do outro anterior, mas claro está sem nunca atingirem a graça superlativa dos capelos de Carmen Miranda.
Pena é que os cavalheiros convidados tirando um ou outro boné militar uma ou outra cartola aparecessem quase sem excepção em cabelo, em capachinho ou simplesmente em careca.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Feliz aniversário Maxim! Polina Osetinskaya plays Schostakovich Piano Concerto # 2




A profundidade e a ironia da música de Shostakovish pode ser apreciada aqui nesta obra que dedicou ao 19º aniversário do seu filho Maxim, que nasceu neste dia 10 de Maio de 1938. A partir do minuto 7 com imagem filmada da interpretação da extraordinária Polina, começa o segundo andamento, andante, que se funde no allegro do  terceiro andamento. O compositor referiu-se a ela como uma obra sem importância. Mas é bem audível que isso não é verdade.

sábado, 5 de maio de 2018

Homem com barbas.


Desenhar com o lado errado do cérebro.

Este talvez tenha sido com o lado certo do cérebro.


Desenhar com o lado certo do cérebro.

Há alguns anos foi popularizada a ideia da dominância dos hemisférios cerebrais no comportamento individual. Haveria pessoas mais influenciadas por um dos lados, por exemplo o lado direito que seria o da criatividade;  e outras, pelo o lado esquerdo, o da racionalidade. 
Em 1979 saíra já o livro de Betty Edwards que nunca teve tradução em Portugal, " Drawing on the Right Side of the Brain" de modo que abusando desta noção ou talvez adaptando o conceito costumava dizer que há desenhos que se fazem com o lado direito do cérebro mas outros são feitos com o lado esquerdo. Hoje que tudo isto está ultrapassado verdadeiramente o que digo é que alguns desenhos são feitos com o lado certo do cérebro e outros com o lado errado. 



















Este nitidamente foi com o lado errado.




sexta-feira, 4 de maio de 2018

Arte pela morte contra a Morte.




Num machado de mão talhado há 250 mil anos num sílex, foi preservada uma concha fóssil que o integrava. 


Ás vezes a Arte não é só fazer. É também preservar o que se encontra. É saber não destruir.

O belo é a perfeição que se reconhece sem tempo nem explicação.

terça-feira, 1 de maio de 2018

"Então e qual é o segredo?" -Os direitos de autor e a transmissão do conhecimento.




"-Então e qual é o segredo?
-O segredo não o posso revelar!"

Nos meus tempos de operário metalúrgico, inicialmente trabalhei como operador de máquinas rectificadoras de peças em série capazes de criar orifícios cónicos cuja variação entre o menor e o maior diâmetro não ultrapassava os 8 mícron. Por motivos de produção e contenção do desperdício de peças para sucata, determinados ajustes nas máquinas só podiam ser feitas pelos afinadores autorizados, havia mesmo uma categoria profissional assim designada. Uma das afinações consistia numa alteração de translação de um veio em movimento que se fazia pela regulação de três parafusos. Um dos afinadores cioso do segredo, com a bata desabotoada e de braços abertos fazia uma cortina de forma a impedir que a sua afinação fosse percebida. Como se isso não bastásse apertava e desapertava parafusos mortos e sem nexo para o objectivo pretendido. Quando uma vez o interpelei sobre aquela desnecessária coreografia exclamou " Ah! Se calhar querias ficar a saber tanto como eu?!"




A cultura não tem a ver com diálogo tem a ver com a prevalência do mais forte e a submissão do mais fraco.

A iniciação pressupõe um caminho sem retorno de elos e amarras, de compromissos que impedem o iniciado de revelar ao próximo um conhecimento que enquanto for segredo só o beneficia a ele e aos que têm estatuto semelhante.


O segredo por vezes reside em não revelar algo que simplesmente não existe e por isso não se pode revelar. 


A elite só o será enquanto esta convenção justificar o seu poder.
O poder é legitimado por motivos mágicos de transcendência. Um poder que por vezes se diz vir directamente de Deus. De uma força maior como um conhecimento superior, ou uma tecnologia mais avançada. 

É bem conhecido o terror que os democratas têm de que o "poder caia na rua". A democracia legitimada na Praça, é ilegítima na Rua. Na Praça a multidão é estática e é controlável, na Rua a multidão desloca-se, Por mais pequena que seja a rua a multidão encontra-se em movimento e é dificilmente controlável e contabilizável. 

Um jornalista, também professor, ocupou durante muitos anos vários programas de comentário político até que chegou a uma presidência de república. Esse senhor para menosprezar o poder que teriam as manifestações de rua e o número de manifestantes em protestos sucessivos. Banalizando essa afirmação de cidadania fez a seguinte comparação: 
O que é isso de 50 mil ou 60 mil manifestantes, a lotação do Estádio de Alvalade, o Estádio da Luz cheio? Eles enchem quase todas as semanas.




Começamos na escola a aprender o nosso lugar. Caso a família ainda não nos tenha ensinado. 
A cadeira na frente junto à secretária do professor, a cadeira ao fundo, nesta aula não há lugares fixos. A Praça e a Rua são reflexos disso. Os parlamentos também. São câmaras, pequenas praças de lugares sentados fixos. Salas de aula de uma representatividade encenada e codificada. Aqui os nobres, ali os plebeus. Aqui os homens, aqui também as mulheres. Aqui os Doutores, aqui os sem título. Este sistema de validação por título é tão importante que a falsificação se faz por todo o lado Portugal, Alemanha, Holanda...
O sistema de castas perdura, mas não só na Índia.

Esta conversa elíptica que leva a lado algum nem vem a propósito do Primeiro de Maio. É mais para dizer que por muito que me custe evitarei ao máximo ferir os direitos de autor. Deixarei de divulgar vídeos com filmes ou música ou palestras. Reparei que muitos desses vídeos desapareceram por suposto conflito com os direitos de autor e não era essa a minha intenção. Por vezes coloco músicas das quais tenho o disco mas não o vídeo que acompanha a música. Quando parece importante coloco os créditos mas ultimamente reconheço que não o tenho feito com tanto rigor.
Mas acabou-se esse risco de abuso que cause dano ou melindre alheio.







segunda-feira, 23 de abril de 2018

Viva Prokofiev! -Sergei Prokofiev - Sinfonia No.1 em Ré maior, Finale: Molto vivace



A estreia desta sinfonia faz hoje anos.
Este quarto andamento não sei se é um ciclone que rodopia e levanta no ar aves, aromas de flores e odores de terra húmida; ou se é um galope por prados verdes a perder de vista. Não sei se é um rio primaveril que nasce em remoínhos do degêlo das neves e que canta montanha abaixo entre fragas e lameiros; ou se é um torvelinho de crianças correndo numa praia. Mas sei que é um hino de alegria cheio de vitalidade com uma energia criadora ilimitável. 
Esta é uma das boas interpretações que me foi dado escutar. Igualmente gosto da interpretação de Gennady Rozhdestvensky conduzindo a Orquestra da Rádio e TV da URSS. 
A velocidade deste Molto Vivace é tão delicada que fácilmente é destruída por modas de valeris gergieves sempre a chicotearem o tempo e a impedir as notas de se ouvir.
Já agora uma lição do grande Celibidace mesmo para quem não fala alemão.



E o deleite de conduzir a perfeição:





Não havia livros na casa.


Pedia livros e traziam-me guloseimas: rebuçados com feitios de peixes... amêndoas de licor enfeitadas para parecerem um porquinho ou uma galinha. Amêndoas de açúcar mole a imitar ovos de Páscoa... Bombons... 

Pedia livros que era o que eu mais desejava e traziam-me guloseimas doces. E diziam-me "Olha que tu não peças nada à Dona Gigi!" 


"Que queres tu?" perguntava-me a Dona Bibi.

- "Quero histórias!".
"A  Bibi agora não tem tempo para contar histórias!"
- "Quero livros!"
- "Livres?" perguntava a Dona Gigi.


Pedia livros e traziam-me as futuras dores para os meus dentes.

Não havia livros na casa nem havia escova de dentes. E eu pedia livros. Não sabia que devia pedir também uma escova de dentes. Mas se a pedisse não adiantaria nada é certo.

Quando vinham de visita, a Gigi e a Bibi, traziam bolos para o chá. Costumavam também trazer as tais guloseimas, por vezes até caramelos ou chocolates. Poderiam perfeitamente entrar na livraria em vez de se ficarem pela pastelaria que ficava na mesma rua. Nem precisavam de muito andar ou carregar porque o "chófér" com boné de pala deixava sempre o espada preto estacionado à porta das lojas e encarregava-se de carregar os embrulhos.


- "Livros Gigi! Ele disse livros.

- "Livros? Mas ele ainda não sabe ler!