terça-feira, 15 de setembro de 2009

Guarda Sol, Sombrinha - Guarda Chuva, Para-águas.

Diz a lenda que na distante e antiga China, o filho de um Grande Mandarim apaixonou-se por uma modesta camponesa. A jovem era tão inteligente e bela quanto era pobre. Naquele tempo isso era impedimento para o relacionamento dos apaixonados. O Mandarim que era um homem sábio, não querendo sofrer a revolta do seu filho por impedir o namoro ou até o casamento, decidiu propor um desafio à jovem camponesa. O desafio seria pedir algo impossível de ser feito por uma jovem de condição tão modesta na esperança que o seu filho percebêsse que a sua apaixonada não era digna do seu estatuto. Então disse-lhe: "O meu filho tem uma rara inteligência natural. Desde tenra infância tem estudado com os melhores mestres todos os ramos do conhecimento. No futuro concorrerá com os melhores para ser Mandarim e não tenho dúvida da sua qualidade para chegar ao nível que eu atingi. Para seres merecedora do meu filho e da riqueza que ele te trará, terás de lhe erguer um palácio onde quer que ele vá. Um palácio que o acompanhe na idade e o resguarde dos elementos, com janelas amplas para que ele possa olhar a terra em volta e os astros do céu. Um palácio que o defenda de quem dele se aproximar para lhe fazer mal." A jovem retirou-se em silêncio perante o sorriso incontido do Mandarim, e o olhar desesperado do seu amado. O caso parecia resolvido, bastava esperar pela próxima lua cheia, pois era esse o fim do prazo dado à jovem camponesa. Os dias e as noites passaram rápido. O dia coincidira com a chegada da Monção. A época do ano em que o Sol quente é obscurecido por nuvens gigantescas que empurradas por ventos fortes desabam em chuva torrencial. Na hora combinada a camponesa compareceu perante o Mandarim, no terreiro em frente ao seu palácio. O vento silvava entre os bambus dobrando as canas mais finas. "-Que tens para me dizer?" Perguntou o Mandarim em voz alta. "-Tenho para vos dizer Senhor que não perdi meu tempo, para que não perdêsseis o Vosso. Assim aqui tenho o que me pedistes!" E a camponesa ergueu um estranho bastão. O vento erguia algumas folhas e palhas sêcas e misturava-as com pequenas baforadas de pó. "Que vem a ser esse feixe de canas rachadas? Acaso perdeste a razão, e zombas de mim??" Gritou o Mandarim tentando fazer ouvir a sua voz sobre o ruído das pingas grossas que começavam a matraquear as telhas do alpendre onde recebia os visitantes. A jovem orientou o bastão na sua frente que era a direcção onde estava o Mandarim e logo dois guardas correram para ela julgando tratar-se de uma arma. O primeiro que se aproximou julgou ter sido atingido por uma maça de guerra e foi derrubado mais pelo susto do que pela pancada. O segundo estacou surpreendido pela queda do camarada e pela transformação do objecto que a jovem erguia em escudo de combate circular e de centro pontiagudo. Num movimento rápido a rapariga ergueu o escudo acima da cabeça. Uma tromba de água começara a caír ensurdecendo todos e ocultando tudo como um nevoeiro cerrado. A intempérie fez desaparecer todos os que se encontravam no terreiro. Todos menos a moça. Assim como vieram, a chuva e o vento pararam e o Sol forte reapareceu. Uma exclamação de admiração soou em coro pelos alpendres onde se abrigava a multidão de colaboradores e familiares do Mandarim. Com andar sereno a moça dirigia-se para o Mandarim sob a sombra daquele escudo que agora se via ser de papel encerado e colado a lâminas de bambu. A chuvada forte que molhara a assistência não atingira a moça. O espanto era geral e fez levantar o Mandarim que por sua vez decidiu aproximar-se para ver melhor aquela espécie de chapéu. A jovem camponesa retorquiu então. "Não zombo de Vós Senhor. Este feixe de canas é uma modesta casa. Em qualquer parte se poderá abrir para o sol, chuva, ou vento frio. No seu abrigo se vislumbra todo horizonte e o céu estrelado. Será bordão nos maus encontros e na longa caminhada. E transformar-se-á num palácio se um Mandarim nele tomar abrigo." O Mandarim tinha-se aproximado tanto que já estava na sombra do chapéu, agarrou a mão da moça e levou-a ao seu filho. Então disse "-Faço votos para que tu mereças uma mulher tão inteligente." A multidão aplaudiu a decisão do Mandarim, e os jovens logo casaram. Todos os viajantes que passavam naquela região da China traziam um chapéu daqueles. O filho do Mandarim continuou a estudar mas nunca se candidatou a Mandarim, dedicou-se à manufactura do chapéu que a sua amada esposa inventara. Que interesse podia haver na carreira de Mandarim que era vedada a pessoas tão inteligentes como a sua esposa? E foi assim, mais coisa menos coisa, que a lenda conta como foi inventada a sombrinha, o guarda-sol, o guarda chuva, e o para águas. O nome foi dado pelos viajantes portugueses que chegaram aquela região da China. Os que o compravam nos dias de Sol para as suas namoradas, ou esposas chamavam-lhes sombrinhas. Se eram para eles e eram maiores chamavam-lhes guarda-sol. Se estava a chover chamavam-lhes chapéu de chuva ou guarda chuva porque os abrigava, os guardava, da chuva. Os chapéus maiores eram os para águas. Daí tantos nomes para descrever um objecto que sendo o mesmo, parece diferente consoante o tamanho e a função em que é utilizado.

2 comentários:

Lilazdavioleta disse...

Olá Luis ,
a lenda , além de interessante é linda .
E gosto , muito , do desenho .
Sobretudo do guarda chuva . É esse o seu nome , uma vez que é um homem a usá-lo , e , tb , porque chove .. .
Certo ?

Bem ... posso " roubà - lo ", para a minha pasta de furtos ?
( se algum dia o utilizar , no meu blog , claro que será com os devidos créditos ).
Mas se não , amigos à mesma .

Maria

Luis Filipe Gomes e Silvia Cunha Pedro disse...

Maria,
podes usar todos os "bonecos" que forem meus. Não é furto, é partilha.
Eu pensei que a lenda era de conhecimento geral. A mim contaram-ma quando eu era pequeno. A minha mãe, as tias, e as tias avós passaram-me histórias bíblicas misturadas com histórias de variada proveniência desde Ésopo, Shakespeare, aos irmãos Grimm, e Hans Christian Andersen. Acho que elas ignoravam a origem das histórias que sabiam. Esta lenda é por isso desse grande autor de todos os tempos e culturas chamado Autor Anónimo.
Infelizmente a versão é reescrita por mim pois já não tenho memória de como era quando me contaram a lenda. A mesma memória que me diz que a história era realmente de encantar, não se lembra de como era a narrativa.
Fiz o que pude.
Luís