quarta-feira, 21 de outubro de 2009

José Saramago, Caim, a Bíblia, Prisciliano e o Galo de Barcelos.

1-José Saramago merecerá sempre o meu respeito pela coragem intelectual e posso mesmo dizer, pela coragem física, que tem demonstrado. Zanguei-me com "Todos os nomes", e nada mais li dele impresso em forma de livro. O anátema não foi válido para as suas declarações e crónicas. Mas agora extingui-lo-ei e vou comprar o "Caim", pois é a forma de sair e estar ao seu lado ombro a ombro. Não li a Bíblia toda como não li Saramago todo. De Uma e de Outro livros há que me aborreceram. A narrativa ou as palavras perturbaram a minha leitura e desisti. Talvez o meu empenho não usasse da disponibilidade suficiente mas sim do preconceito bastante que impediu levar por diante a jornada. A Bíblia é um Livro de Livros. Livros foram seleccionados enquanto outros foram retirados mais pela conveniência humana do que pela inspiração Divina. A leitura literal da Bíblia foi feita durante séculos até hoje. Essa forma de ler tem inspirado os fundamentalismos mais radicais. O entendimento estrito, mais imediato e acessível a qualquer um, foi paradoxalmente proibido por esses fundamentalismos directamente quando não permitiram nem permitem a contextualização, nem a interpretação, nem a adequação cultural e temporal. Também indirectamente o entendimento era negado quando a leitura e a celebração utilizava uma língua morta ou desconhecida da audiência como até há pouco foi o Latim ou as línguas dos colonizadores. É deste entendimento estrito que julgo Saramago estar a falar. Se lermos Deus como uma entidade externa a nós próprios, então Saramago tem toda a razão Deus aparece como ser caprichoso sempre pronto a castigar. Se Deus for lido como algo que somos no Universo, no Todo a que pertencemos, Saramago tem razão também, a Bíblia é um livro para a nossa interrogação interior, para o nosso achamento e deve ser guardado em casa longe do alcance até que seja apresentado às crianças com a parcimónia e o acompanhamento que se usa para os contos infantis mais aterradores. 2- A permeabilidade que os primeiros cristãos até ao séc.IV tiveram relativamente a influências filosóficas orientais foi duramente reprimida e culminou com a decapitação de Prisciliano o primeiro mártir cristão a ser executado como herege e após confissão obtida através de tortura. Foi o primeiro supliciado por mãos laicas a mando da Igreja a primeira vítima do que mais tarde foi chamada Inquisiçao e que hoje se chama Congregação para a Doutrina da Fé. Prisciliano não era um crente qualquer, era Bispo de Ávila. A sua atitude, o que dizia e o que escrevia ameaçavam o poder da Igreja. A igualdade entre homens e mulheres, o acesso das mulheres ás leituras da Bíblia a par dos homens, o direito á auto-interpretação dos textos bíblicos e á leitura não literal, a eleição de leigos á categoria de doutores, o ascetismo exigente que obrigava os sacerdotes ao celibato, ao voto de pobreza e ao jejum dominical, a maior exigência para os sacerdotes em oposição à maior benevolência para os leigos etc. etc. etc. Eram demais e ainda hoje são demais. A implantação do Priscilianismo no Noroeste Ibérico mantém-se até hoje. Como não conseguiram acabar com a romaria ao túmulo do Santo Mártir Herege Prisciliano, no séc.IX construíram uma imponente catedral no local e mudaram o nome do santo para São Tiago. Santiago de Compostela. Não se aperceberam porém que Prisciliano que advogava a itinerância o caminhar descalço dos sacerdotes sabia que quem faz uma peregrinação acaba por se encontrar consigo próprio que é o mesmo que dizer com Deus. 3- Hoje sugerem até que Saramago deixe de ser português. Assim fez um Senhor Deputado ao Parlamento Europeu eleito nas listas do PSD. Como se a renúncia de Saramago à sua Nacionalidade o tornásse alheio aos portugueses. Era como se fôsse possível que o Galo de Barcelos deixásse de ser português. O Galo de Barcelos um símbolo Priscilianista (teoria minha) metáfora da Hospitalidade e do dever de Justiça perante o forasteiro, é um património de todos os portugueses e de todos os que comunguem com esses valores em todo o Mundo. O Galo de Barcelos tal como Saramago é património português e da humanidade

1 comentário:

Lilazdavioleta disse...

Nunca me zanguei com Saramago .
Houve livros que não li , como me acontece com outros escritores , por não me " apetecerem " no momento .
Reli , há pouco As intermitências da morte , que gosto bastante .

Quanto à polémica e tudo que é dito sobre ... somos tão " "pequeninos ", quando discordamos de algo .
Subscrevo o teu texto , na sua maioria .
Maria