sábado, 12 de março de 2011

OS IMPOSTORES DA LUTA - DUETO DE EMBUSTEIROS QUE BREVEMENTE PODE ENCONTRAR NUMA MANIFESTAÇÃO PERTO DE SI.

Um farsante que dizia ser bruxo, ofereceu em tempo os seus serviços a um pequeno clube regional de futebol que de azar em azar andava arredado de qualquer espécie de triunfo. Este dito bruxo contou mais tarde o muito que se divertiu ao iludir e manipular dirigentes, jogadores e adeptos com as suas pagelanças e macaqueações. Maior foi ainda a sua folia quando achou insuficiente o que conseguia em dinheiro e em géneros da pobre gente e ao retirar-se acusando-os de pouca fé, viu as suas vítimas de joelhos no chão implorarem-lhe que não os abandonasse. - Estúpidos! - clamava o bruxo – Atrasados! – Por fim, para que não o aborrecessem mais, tentou dizer a verdade e revelar que os seus rituais e responsos eram todos a fingir, que os tinha andado a enganar, mas mesmo assim as suas vítimas continuaram pedindo o seu retorno.




Neste ano de 2011 de forma aparentemente inesperada, o festival da canção nacional para a Eurovisão foi ganho por um duo humorístico que costuma alinhar por uma cadeia de televisão privada, concorrente da televisão estatal que organizou o festival.

O festival da Eurovisão que sempre foi apontado como programa de interesse artístico menor, fora de moda e tendencioso, devido à forma como os vencedores são escolhidos pelos patrocinadores que detêm as companhias editoras e não só, não deve ser a nível nacional outra coisa do que o espelho da realidade internacional.

A vitória do duo através dos telefonemas dos espectadores deve ter sido tudo menos um acaso, a meu ver foi um cavalo de Tróia que entrou na televisão estatal.

O duo cómico pretende assumir visualmente um convencionado estereótipo que distintos fazedores de opinião acham ser a imagem do PREC (Período Revolucionário Em Curso), ou seja: Dois agitadores reivindicantes que encabeçam movimentos populares à imagem dos que existiram nos meados dos anos setenta. Um desses fazedores de opinião, apresentado como professor por dar notas com a mesma facilidade com que deita perdigotos a bombordo e a estibordo, afirmou que eles eram o PREC, para que não houvesse dúvida entre os mais jovens que não se lembram ou não viveram o dito período.

Um dos elementos do duo apresenta-se com uma boina basca preta, grandes óculos, e um violão onde toca em rasgado acordes repetitivos enquanto vai trauteando onomatopeias para arremedar um famoso cantor já falecido, muito importante em termos musicológicos e muito querido da chamada esquerda. O outro assume uma apresentação desleixada, com cabelo comprido engordurado, bigode desalinhado e barba de três dias, vestindo fatiota meia descomposta e muito justa ao corpo à maneira dos anos setenta do século passado; empunha um megafone onde vai papagueando uma lengalenga nasalada, pontuada por palavras que repete periodicamente: camaradas, povo, luta, …

A ousada aparição deste duo burlesco que se infiltra em manifestações e protestos autênticos, acontece sempre que as três cadeias nacionais de televisão estão gravando imagens. A sua inusitada presença pode apanhar desprevenido quem na rua mostra publicamente a sua indignação, mas uma observação mais atenta detecta que estes personagens não vieram para se juntar ao protesto mas sim para o caricaturar e fazer pouco de quem protesta. Por isso talvez não seja por distracção nem por inocência que os canais comprometidos com o poder económico e com a finança percam mais tempo a mostrar a manobra de diversão do duo em vez de esclarecer a razão do protesto que eles decidiram ridicularizar.

Nas eleições presidenciais brasileiras o palhaço Tiririca foi candidato à maneira do que Coluche fez em França; aqui em Portugal o candidato presidencial Coelho usou de mordaz ironia à semelhança destes, mas o alvo de todos eles era o poder corruptor e corrompido, não os mais fracos. Talvez seja sinal deste tempo, em que os valores parecem invertidos, em que os especuladores criam riqueza artificial à custa de fazer muitos pobres para enriquecimento de poucos ricos.

Ao ver estes dois impostores pantomineiros e a reacção tolerante dos manifestantes que interceptam, não posso deixar de me lembrar das facécias do bruxo. Lembro-me também do português que no Brasil ouvia anedotas sobre si e do alentejano que contava anedotas de alentejanos. Todos eles têm a grandeza de alma de não se importarem com o que é pequeno. Parecem mesmo legitimar que falsos bobos lhes façam vestir a farpela de bobo.

Porém a história ensina e avisa; tenham cuidado os trocistas e opressores que sem pudor têm o descaramento de troçar dos explorados. Quem tudo já perdeu nada tem a perder.

1 comentário:

Luís Coelho disse...

Gostei de ler este texto.
Andam por aí certos bruxos de rezas manhosas e com visões arrasadoras.

Até quando.....?????