domingo, 23 de junho de 2013

Turista Viajante





Antigamente não havia férias e quem se aventurava por terras estranhas tinha de ter uma boa razão para o fazer: Talvez procurar proventos, talvez procurar nova vida, aprender nova arte, procurar parentes, cumprir uma peregrinação, escapar de alguma injustiça, ser degredado... Ser mandado para a guerra.
Os relatos desses viajantes antigos assumiram uma dimensão mítica no imaginário dos que os ouviram ou leram. 
Em Portugal cultiva-se há séculos esta memória de narrativas em terras estranhas. De Fernão Mendes Pinto a Wenceslau de Moraes e a Ferreira de Castro os exemplos enchem uma biblioteca.
Com o advento do turismo pelo final do séc. XIX nasce um tipo diferente de viajante, aquele que faz da viagem um passatempo, uma recreação. O perigo é calculado, transformando o imprevisto e uma certa precaridade numa actividade lúdica intensa a que o viajante se submete num período de tempo determinado.
Júlio Verne descreve bem nos seus romances este tipo de personagem sempre pertencente às classes abastadas; desde a “Volta ao Mundo em 80 dias” até a “Thompson & Cia”.
Se bem me lembro neste livro “Thompson & Cia” publicado postumamente em 1906, há referências pouco elogiosas aos Açores que me desgostaram quando o li.
Este turismo das classes endinheiradas que se entretêm com a viagem quando o tédio os consome, serve de contraponto e apaziguamento à voracidade com que levam a sua existência, mas não deixa de ser um retrato dessa mesma voracidade.
Este turismo de deslocação e viagem é uma actividade cara e não acessível à classe trabalhadora. Talvez por isso tenha entrado no seu imaginário colectivo e se tenha transformado num objecto de desejo e quase necessidade.
A Portugal, um país de viajantes navegadores e andarilhos, este turismo chegou com o atraso de 100 anos, se for tomada como referência a data da publicação em 1873 de “Volta ao Mundo em 80 dias”.
A generalização do direito a férias sem perda de retribuição, com o recebimento do chamado subsídio de férias veio tornar possível este novo negócio que até essa altura tinha pouca expressão. Convém esclarecer que a verba, o dinheiro, dos dias de férias e o subsídio de férias não são uma quantia que se acrescenta ao salário mas sim um capital que a entidade empregadora retém na sua posse e só disponibiliza após completado um ano de trabalho.
Agora que muitos estão desempregados e quando muitos têm trabalho precário sem consagração de férias, o tempo de férias parece ter retomado a aura luxuosa de fausto de outro tempo quando se destinava a uma elite privilegiada.
O trabalhador comum que até há pouco era embalado e afagado nessa miragem da “classe média” e que era sugestionado a se julgar rico entre ricos perdeu a ilusão. A grande encenação desta democracia de consumo em que a liberdade se mede pela possibilidade de um trabalhador num impulso de euforia gastar todo o seu salário num objecto frívolo está à vista de todos e não presta nem para o que deve ser a Democracia nem para o que é a Liberdade. A liberdade do casino, do jogo de azar não é a Liberdade.
Com tudo isto contentes estarão os viajantes nossos contemporâneos que escrevem crónicas nos jornais, publicam livros e fazem programas de televisão com as suas aventurosas viagens. O fastio com que fogem da multidão e dos locais turísticos invadidos pela multidão releva, mais agora, a sua exclusividade como seres privilegiados. Temerários e heróicos, sua audácia vertida em sagas do cabo do mundo, ilustrada ao gosto juvenil entra já no domínio da lenda e do “sonho de uma vida”.
Pena é que de vez em quando nos soe ao ouvido uma expressãozinha vinda do fundo berço da sua educação esmerada, como uma que escutei; dizia ele, o viajante: “-Não entrei no Afeganistão porque na altura era um autêntico vespeiro!”
Esta capacidade de identificação de um país com uma colónia de insectos é no mínimo uma metáfora que define o turista viajante. Um espírito neocolonial, culturalmente intolerante, materialmente arrogante.
Os que não são turistas viajantes resta-lhes uma condição melhor; reconhecer o valor das coisas próximas e quotidianas. Saber como são boas as nêsperas em Março, as cerejas em Maio, os morangos em Junho... Como é bom o vinho tinto do Cartaxo e da Covilhã e de Lagoa, do Douro ou do Dão ou do Alentejo; como são boas as broas de centeio e as broas de milho. Como são belos os azulejos e a cerâmica em todo lado. Como é bela a poesia e tantos poetas, a música e tantos seus cultores. Como é bela e delicada uma paisagem morosamente construída e os seres que a fazem e nela habitam.


 

2 comentários:

Lilazdavioleta disse...

Julgo que nunca fui turista . À partida, por preguiça .
Saio , algumas vezes , para conhecer e ver as diferenças .
E é bom o regresso , quando transportamos os tesouros que descreves no final do teu texto .

A pintura que encima o texto é lindíssima .

Carlos Santos disse...

O valor das coisas está naquilo que de bom faze-mos, por nós e pelos outros.Acho que tu fazes bem em dizer as verdades que a muitos custa ouvir e terminas em grande estilo, falando o que de bom ainda existe em Portugal e que esses custosos ouvintes tendem a querer acabar.
Vamos conhecer o nosso país e as suas gentes e o que de bom temos.

Abraços
PS:Gostei do azulejo,continua.

Carlos Santos