quarta-feira, 17 de julho de 2013

A sardinha para três.




Falou-se da fome antiga, do tempo antes do meu, da sardinha para três. Parecia difícil uma sardinha para três ainda que ela fosse grande. E parecia estranho como dividir uma sardinha em três. Lombo de um lado e lombo de outro lado divide-se a sardinha ao meio, dois! E o terceiro?
A Tia Adosinda explicara-me uma vez: Da cabeça até à barbatana dorsal para o que mais precisa, daí até à barbatana da barriga para o que mais trabalha, ficando o rabo para o que for mais mimoso. Ela comia a parte da cabeça, o marido comia a parte do meio e o filho o rabo. Quando já tinha quatro filhos e havia duas sardinhas ela e o marido comiam as cabeças, o filho e a filha mais velhos que já trabalhavam ao lado dela e do pai comiam a parte do meio e os filhos mais novos que andavam na escola comiam os rabos. Na sardinha não se deitava nada fora e a tripa era a parte mais suculenta e saborosa. De facto o que eles comiam não eram as sardinhas mas sim as batatas cozidas, com cebola picada, pimentos assados e a salada que houvesse. A sardinha, ou o pedaço que houvesse dela, repousava sobre a broa de milho ou centeio, aromatizava o azeite e era o conduto perfeito porque condimentava toda a refeição.
Quando decidi contar e exemplificar para os meus companheiros mais novos esta forma de partir e comer a sardinha assada, vi os seus rostos primeiro pasmados ficarem depois horrorizados quando trinquei e mastiguei a cabeça do peixe, como se eu estivesse a comer vidro ou a engolir espadas. De facto todos eles tinham já comido, e se debatido, com as espinhas das sardinhas assadas . Um deles numa ocasião quando punha de lado a espinha do meio com a cabeça e a barriga agarradas tinha ouvido alguém dizer: “Estás a deitar fora o melhor!”. Pensara que era brincadeira. Mas agora percebera que não era bizarria nenhuma e que aquilo que eu contara era um relato de carência e não de excentricidade.

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