sábado, 16 de agosto de 2014

Na despedida da Dóris Graça Dias



Vamos lá a ver se nos entendemos!

A felicidade na vida pode ser só uma paisagem como a serra em frente e as casas, as casas em salpicos aqui e ali como folhas esvoaçantes arrancadas de um caderno, que se quedassem num  pousar breve... Um monte desenhado pela aresta das árvores: os choupos, os ulmeiros, as oliveiras e entre elas, no espaço, o bater vagaroso das asas das garças que a distância traze refulgente numa acção retardada e de inesperada lentidão. A felicidade pode ser essa lentidão branca sem dor, deslocando-se na linha mediana entre o olhar e a aresta do monte; entre o azul celeste e a saibreira verde da ribeira em baixo. A morte dos outros não me importa para nada, a morte dos outros não me traz felicidade e só me aflige e me deixa de boca aberta, pasmado a olhar para lá do cenário finito da minha visão, e a correr aquela interminável lista de afazeres que com eles poderia ter realizado. E com eles poderia ter sido alegre e ter rido e disparatado e poderia ter sido...  Olha Dóris acho que te dei um boneco um dia ou era para ter dado, já não sei... Vamos lá a ver se nos entendemos: O Mário Sá Carneiro foi-se aos 26, o Cristovam Pavia aos 35, a Florbela Espanca aos 36 o Fernando Pessoa aos 47 e eu que o tinha visto numa fotografia de 1935 e pensara então que ele tinha morrido com sessenta e muitos...


Eu penso que te dei um boneco um dia, deves ter dito que gostavas dele ou assim, mas se não dei, bem que gostaria de te ter dado. Hoje Dóris não consigo desenhar nada e escrever, bem vês como me é difícil. E hoje o meu pai faria anos... Hoje não consigo desenhar nada Dóris, mas acho que continuarei a pensar em ti durante muitos desenhos por vir.




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