sexta-feira, 13 de maio de 2016

Para melhor compreensão das esculturas de Beatriz Cunha: CORPO ESPAÇO NEGATIVO





CORPO ESPAÇO NEGATIVO

O tronco é uma parte aparentemente pouco expressiva no corpo humano, no entanto é uma sólida raiz onde está implantado o pescoço que faz a ligação à cabeça, e onde estão implantados os membros. O torso não configurando a individualidade que se apreende numa cabeça ou num busto, não deixa de transmitir um cânone de vitalidade e acção. As clássicas armaduras romanas destinadas a proteger os soldados exibiam em relevo o ideal do torso de um atleta em máxima forma, identificando-o assim como um guerreiro temível.

 No tronco, como num cofre, estão protegidos órgãos vitais que nos transmitem directamente a percepção da própria existência. A alteração do batimento cardíaco ou impossibilidade da respiração são sintomas imediatos da fragilidade da vida. O esvaziamento da bexiga é sinal de reacção ao perigo e de prontidão para o combate. O estômago revolto indica o sentimento de relutância e mesmo repugnância por tudo que é errado e contrário à ética.

Nos museus os conservadores de escultura antiga guardam os torsos sobreviventes às catástrofes e aos iconoclastas. Esses fragmentos em pedra ou bronze, dos quais muitas vezes nada se sabe; nem do autor nem da cultura sua contemporânea, suscitam a interrogação sobre o que é o tempo, e sugerem reflexão sobre a transitoriedade de tudo aquilo que julgamos eterno. Não existe tempo sem memória. O vazio que o molde de um torso propõe é essa amnésia. É a recusa do despojo como objecto último. É a negação na recusa do salvado de um tempo passado pela afirmação do negativo da sua concretização. Os moldes são ausências, existem antes e além do que encerram, são o tempo simultâneo ao espaço como numa estrela negra.

CORPO ESPAÇO NEGATIVO é uma peça que exibe um molde do tronco de um corpo humano depositado sobre uma mesa-de-cabeceira recuperada dos despojos urbanos. Na escultura de Beatriz Cunha é patente a necessidade de contrariar a obsolescência característica da economia de descartabilidade e consumo. Nesta peça a ausência é revelada pelo vazio; o grande vazio da sociedade contemporânea ocidental face à necessidade de transformação de um cânone hegemónico e destruidor.

4 comentários:

São disse...

Muito interessante , gostei de ter vindo.

Saudações cordiais

Luis Filipe Gomes disse...

Obrigado São. Gostei que tenhas vindo e comentado.

Carmem Grinheiro disse...

Tão bem diz, que : "não existe tempo sem memória" - tão bem conseguido, por portas travessas, no trabalho da escultora, visto que os moldes são ausências - mas tão importantes para a concretização de algo, seja lá por qual ângulo se veja isso.

abç amg

Luis Filipe Gomes disse...

Obrigado Carmem!