sábado, 6 de agosto de 2016

O risco de desenhar com uma ponta de grafite numa tabuínha de madeira.




Para quem está habituado ao papel, a superfície dura da madeira resiste para além do esperado. A resistência que oferece desafia o ímpeto do traço. Convida a mão a ser forte e a riscar livre. Selvagem e livre. Já não é voar aquilo que interessa mas sim sulcar. Sulcar como quem lavra ou navega. O vento não está mais no traço mas na ponta do estilete, e no olhar. A velocidade aumenta e assim aumenta o sobressalto. O atrito desigual da fibra da madeira que o afagar do lenho pela lixa não conseguiu aplanar, chega ao seu clímax e a aguçada ponta de grafite parte-se. O lápis afocinha na madeira e a mão vai de rojo arrastada no seu movimento. A situação é dramática. O desenho pára. O pensamento cai em si e não sabe o que fazer. Repara que a madeira do lápis marcou a madeira da tabuínha. Um braille incolor testemunha o acidente In Situ. A mancha esfumada do traço pela fricção do aterrar da mão contra a madeira. O traço do arrasto do bico partido que continuou desenhando, como rabo de lagartixa que foi amputado e continua debatendo-se com propósito, como se tivesse vida. E ainda, uns milímetros mais além, a poalha preta da fractura; alguma dela incrustada na madeira, outra projectada pela ruptura, esperando ser varrida pelos dedos do desenhador para dentro ou para fora do desenho.

1 comentário:

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Filipe.
Este texto seu a descrever a trajectória do grafite sobre a superfície da madeira, a fim de criar um desenho, está simplesmente divinal. É mesmo assim que acontece e, quando o "pensamento cai em si" às vezes vem o desalento, outras vezes há em que a fúria é que nasce, no lugar do desenho =)

abraço amigo