terça-feira, 16 de agosto de 2016

"Poema da Pedra Lioz" um hino aos construtores escrito por António Gedeão, com música de José Niza, aqui cantado por Samuel.



Poema da pedra lioz

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na brutidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca… truca…
Lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada românica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de surrobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.

Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca… truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.

António Gedeão



Os Índios da Meia-Praia. Uma ode aos construtores.


Na década de 50, dezenas de pescadores originários de Monte Gordo chegaram a Lagos, na outra ponta do Algarve, à procura de trabalho. Na Meia-Praia havia peixe mas faltavam casas. Improvisaram-se cabanas colmo nas dunas... o aspecto valeu-lhes a alcunha de Índios, os Índios da Meia-Praia.
Quando se deu a revolução de 25 de Abril de 1974 já só restava uma cabana de colmo. Todas as outras tinham sido transformadas. Eram barracas de zinco, com os dias contados porque o governo da altura queria acabar com as barracas no país.
Através do serviço ambulatório de apoio local, conhecido como projecto SAAL, o governo cedia o terreno, o apoio técnico e parte do dinheiro, se as populações avançassem com a mão-de-obra.
Ansiosa por deixar as barracas, a população organizou-se em turnos. Quando os homens estavam no mar, eram as mulheres que trabalhavam nas obras. Havia duas regras: as habitações tinham de começar a ser construídas ao mesmo tempo e todos teriam de ajudar na construção de todas as casas.
O carisma dos Índios da Meia-Praia chegou aos ouvidos de um realizador de cinema. António da Cunha Telles decidiu documentar a transformação que estava em marcha. O trabalho deu origem à música de Zeca Afonso.


Jornalista: Conceição Ribeiro
Imagem: Ricardo Soares
Edição: João Nunes
Produção: Madalena Durão; Diana Matias
Coordenação: Isabel Horta
Direcção: Alcides Vieira





sábado, 6 de agosto de 2016

O risco de desenhar com uma ponta de grafite numa tabuínha de madeira.




Para quem está habituado ao papel, a superfície dura da madeira resiste para além do esperado. A resistência que oferece desafia o ímpeto do traço. Convida a mão a ser forte e a riscar livre. Selvagem e livre. Já não é voar aquilo que interessa mas sim sulcar. Sulcar como quem lavra ou navega. O vento não está mais no traço mas na ponta do estilete, e no olhar. A velocidade aumenta e assim aumenta o sobressalto. O atrito desigual da fibra da madeira que o afagar do lenho pela lixa não conseguiu aplanar, chega ao seu clímax e a aguçada ponta de grafite parte-se. O lápis afocinha na madeira e a mão vai de rojo arrastada no seu movimento. A situação é dramática. O desenho pára. O pensamento cai em si e não sabe o que fazer. Repara que a madeira do lápis marcou a madeira da tabuínha. Um braille incolor testemunha o acidente In Situ. A mancha esfumada do traço pela fricção do aterrar da mão contra a madeira. O traço do arrasto do bico partido que continuou desenhando, como rabo de lagartixa que foi amputado e continua debatendo-se com propósito, como se tivesse vida. E ainda, uns milímetros mais além, a poalha preta da fractura; alguma dela incrustada na madeira, outra projectada pela ruptura, esperando ser varrida pelos dedos do desenhador para dentro ou para fora do desenho.