terça-feira, 14 de maio de 2019

Joly, sempre Joly Braga Santos!

Devo ter dito e até escrito isto várias vezes.
Um dia ouvi na telefonia uma orquestra jorrar torrencialmente uma música delicada que eu nunca tinha ouvido.
Após alguns minutos senti e pensei: Isto é música portuguesa!
Esta percepção tão nítida de pertença, provocou-me a sensação estranha e mágica da ligação de algo tão subjectivo como é uma identidade nacional, através de algo tão abstracto como a música e causou-me uma expectativa que após alguns minutos se confirmou. Havia um coro que cantava em português. No final a locução do radialista anunciou que tínhamos escutado a Quarta Sinfonia de Joly Braga Santos. Então senti uma empatia e uma perplexidade. Algo há numa imagem que nos pode dizer se é uma montanha, uma linha de costa, ou um lago; se é esta ou aquela cidade... mas numa melodia que se gera e evolui e se transforma noutra e noutra ainda numa harmonia sem cliché nem refrão conhecido, sem trompas nem trombetas, sem castanholas nem pandeiretas?... Como se pode captar o sentimento de uma Nação e exprimi-lo assim de forma tão inteligivelmente bela. Foi assim que nasceu o fascínio por Joly Braga Santos do qual hoje se comemora o aniversário de nascimento.
Fica aqui o exaltante e comovente coro final do último andamento desta Quarta Sinfonia.
Orquestra Sinfónica da Rádio Romena dirigida pelo Maestro Silva Pereira em 1978




terça-feira, 30 de abril de 2019

Concerto número 4 de Rachmaninoff para piano e orquestra



Sem palavras!
Há uma suavidade na interpretação deste concerto pelo António Rosado, um tempo de respiração para cada nota que me parecem desconhecidos de outras interpretações incluindo as que ouvi do próprio Rachmaninoff.
O vigor certo, a paixão exacta, o que é rápido não se atropela, o que é torrencial flui sem turbulência. Uma maravilha. Obrigado! Obrigado à orquestra também!

domingo, 28 de abril de 2019

Dessine moi un mouton








dessine-moi un mouton ! Antoine de Saint-Exupéry

J'ai ainsi vécu seul, sans personne avec qui parler 'véritablement, jusqu'à une panne dans le désert du Sahara, il y a six ans. Quelque chose s'était cassée dans mon moteur. Et comme je n'avais avec moi ni mécanicien, ni passagers, je me préparai à essayer de réussir, tout seul, une réparation difficile. C'était pour moi une question de vie ou de mort. J'avais à peine de l'eau à boire pour huit jours,
Le premier soir je me suis donc endormi sur le sable à mille milles de toute terre habitée. J'étais bien plus isolé qu'un naufragé sur un radeau au milieu de l'Océan. Alors vous imaginez ma surprise, au lever du jour, quand une drôle de petite voix m'a réveillé. Elle disait :
- S'il vous plaît... dessine-moi un mouton !



Cianotipia fase da pintura com líquido fotossensível antes da exposição à luz.


Ía verdadeiramente sózinho, sem ninguém com quem falar, até que sofri uma avaria no deserto do Sáara, faz agora seis anos. Alguma coisa se tinha partido dentro do meu motor. E como não tinha comigo nem mecânico nem passageiros mentalizei-me para me desenvencilhar sózinho numa reparação difícil. Para mim era uma questão de vida ou de morte. Mal tinha água para beber durante oito dias. Naquela primeira noite adormeci sobre a areia a mil milhas de distância de qualquer povoação. Encontrava-me bem mais isolado que um náufrago sobre uma jangada no meio do oceano. Então imaginem a minha surpresa quando ao romper do dia fui despertado por uma vozinha engraçada. Ela dizia:
-Por favor... desenha-me uma ovelha!


Cianotipia após exposição à luz e lavagem de relevação do papel.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Concerto nº 4, Opus 40, para Piano e Orquestra de Rachmaninov








































Concerto nº 4 para Piano e Orquestra que o grande António Rosado tocará.
Aqui uma amostra na interpretação de Arturo Benedetti Michelangeli.



terça-feira, 2 de abril de 2019

Pelouro - eram esferas de pedra que disparadas por canhões chamados pedreiros, no século XV conseguiam furar o casco de um navio a duas milhas de distância.
































Reprodução quase integral de uma pinturinha em tinta acrílica  com dimensões de 27x35 cm feita e exposta noano 2000.



Nos rios que descem da Serra da Estrêla encontram-se muitos calhaus rolados graníticos. 
Alguns perfeitamente esféricos.
Apanhei exemplares destas esferas de pedra em Avô, Oliveira do Hospital, antes da fúria betoneira ter arrasado a vegetação e cimentado as margens do Rio Alva.
É certo que em Avô existe uma fortaleza que vigia o Rio Alva e a pequena ribeira que nele desagua e que agora se chama Ribeira de Pomares. Essa fortaleza com certeza deve ter tido canhões-pedreiros. Não me dei ao trabalho de pesar as pedras e as calibrar para ver essa possibilidade. Não conheço se houve disparos desse tipo de artilharia em Avô. O séc. XV e XVI parecem ter sido pacíficos ou pelo menos até nós não chegou nota de batalhas de artilharia. Mas sei que há uma estrada romana que desce até ao Rio Alva e serve o Castelo. Há indicação de mineração de ouro no rio Alva na época romana e julga-se que teria havido ali um castro anteriormente.
Sei também que as catapultas e os onagros romanos tinham versões ligeiras manobradas por dois ou três artilheiros que lançavam com precisão pelouros de uma ou duas libras pedras como as que recolhi no Rio Alva e me serviram de modelo para a pintura. Não digo que as minhas pedras foram pelouros, mas lá que o podiam ter sido isso podiam.

sábado, 30 de março de 2019

Artur Pizarro & António Rosado - Percy Grainger Fantasy on Gershwin's Po...

Blackout poetry - Poesia da Ocultação ou Poesia da Revelação. Em Oeiras no Parque dos Poetas.

Mas é assim uma forma de despertar para o ponto, a linha, o traço, a mancha.

A rasura, o sublinhado, a circunferência à volta de uma palavra, a nota à margem, a correcção ou o aditamento. Quase todos o fizémos em livros de estudo ou em jornais de forrar o caixote do lixo.

As comunicações secretas dos códigos mais simples eram passadas com uma matriz perfurada que ao ser aplicada sobre a página de um livro não raras as vezes a Bíblia permitia a leitura de uma mensagem. 
Debruavam-se furinhos abertos na trama de lencinhos alvos, caseavam-se orifícios, e bordavam-se folhas e flores em torno de delicados recortes abertos por minúsculas tesouras curvas. Lencinhos que ficavam perdidos no banco da igreja ou se deixavam cair no chão certo na altura exacta.

A "blackout poetry" que em português poder-se-á chamar  a poesia da ocultação ou mesmo até a poesia da revelação  invoca também o conceito da transparência, da forma e do fundo e remete para o palimpsesto que é aquilo que ainda resta e é possível  ser lido e apreendido após um processo de apagamento, encobrimento ou lavagem.

Contudo não é de ânimo leve que rasgo páginas de livros ou que as risco. Mas manifestei o desejo de desenhar e participar na iniciativa. Então nos dois minutos que concedi à espera de quem me acompanhava, escrevi com as palavras que já estavam na folha que me deram:
 "Não! Não rasgues obras de inegável mérito."

segunda-feira, 25 de março de 2019

Ao Arquitecto Manuel Graça Dias.



Manuel,
esta mania de escrever coisas mortas
é como escrever em papel velho 
parece pouco asseado 
e rascunho do que poderia ter sido
No outro dia vi "A Mulher de Trinta Anos " 
que a Dóris traduziu e pensei
que tinha de ler as palavras
que ela dera ao Balzac...

Estou a ficar piegas,
saber que não estás
é saber que não há colunas
no remate da Praça
e sentir que o Tejo passa
Sem Terreiro nem Paço,
e leva as águas
só comércio e sem remédio.

Sabes que contigo aprendi
que a fealdade é uma palavra normativa
para a incapacidade de perceber
é um Amtssprache malévolo.
A ergonomia das construções
é a harmonia da necessidade
É o que o fazer ensina a quem faz.
Não há arquitectura popular nem arquitectura erudita
Só há arquitectura que dura e se refaz
da pedra sêca ao arco perfeito
o abrigo e a luz
o ar e o refúgio
o largo e a comunidade
A terra, a água, o fogo, a imaginação
A mão
E a liberdade de poder começar em outro lugar.

Olha, afinal o café no jardim do Príncipe Real terá de ficar para depois.




sexta-feira, 22 de março de 2019

Tufo da Mafalala de Maputo - A dança da corda.

A música a dança e o canto em Moçambique - Grupo Estrela Vermelha da Ilha de Moçambique.

DANÇA EM ANGOCHE- NORTE DE MOÇAMBIQUE

Dança Chope do sul de Moçambique. O Povo Chope e as suas magníficas Timbilas que são xilofones de som precioso. Aqui meninos e meninas guerreiras mostram a sua coragem e destreza.

De Moçambique para o Mundo José Mucavele-Balada para Minhas filhas

A Dor - Quando se dá a somatização da dor alheia.


























Onde estão as casas que havia
Nestas ruas onde agora passo?
Pergunto, o que aqui faço...
Que é dos nomes que então ouvia?

…Dos aromas e sabores que provei?
Não são casas, são dentes arrancados!
Doidas dores, doídas, …pecados…
Sofridas nozes de partir, que sei?

Barrentas águas a vencer, suóres
Fomes e sedes a acontecer, mínguas…
Crianças gritam em tantas línguas
Dilaceradas, perdidas, deuses menores

Dentes arrancados da boca são
E eram firmes Pedras de Guilhim,
Oh restinga de barro! Oh Gente assim!
Precárias ínsuas sem firme chão

Só vós vos podereis reconstruir 
Erguer da ruína vossa vontade
Por ser nessa terra verdade
A bondade de saber sorrir.

domingo, 17 de março de 2019

Arturo Márquez - Danzón No. 2 (Alondra de la Parra & L'Orchestre de Paris)

LAPIS - Olhando para trás e para a "vernissage".


À porta do atelier o primeiro desenho ainda no decurso do trabalho, e já na galeria o último desenho, feito imediatamente antes da inauguração da exposição ilustrando o que pode ser uma mariola ou malhão. Ficaram lado a lado. A vernissage é isso mesmo o último retoque, a última camada de verniz antes de se abrir a porta.











LAPIS - A INAUGURAÇÃO

Foi assim com a Galeria Beltrão Coelho cheia até aos degraus da escada, gente na porta de entrada a esperar vez, conversando. Gente Viva a dizer e a cantar, e a ouvir dizer poesia. 







Imagens de quase toda a exposição LAPIS.



















































































































sábado, 16 de março de 2019

Inauguração da Exposição LAPIS fotos do António Delicado
























O outro lado da pequena sala. A percepção do espanto do esforço do trabalho na pedra dá lugar à perplexidade do trabalho forçado que desconhecemos, que ignoramos e que toleramos. 
Começa pela nossa calçada portuguesa (falei a 30 de Janeiro) um trabalho forçado feito por homens agrilhoados que estavam encarcerados no Castelo de São Jorge pela década de 1840 e deu origem ao empedrado do Rossio em Lisboa, conhecido por "Mar Largo" e que tanto espantava os visitantes estrangeiros do sec. XIX pela ilusão de óptica que fazia parecer ser o pavimento às ondas, em relevo. 
O grande desenho escuro é a representação da Pedreira de Mauthausen - Gusen que tenho aqui mostrado (15 de Fevereiro) e falado em publicações anteriores.
No chão um pedaço de calçada portuguesa e o martelo conhecido por escoda, um paralelepípedo de granito semelhante ao de Mauthausen- Gusen, e uma escultura jacente do António Diogo Rosa.
À direita um plinto onde uma redoma em vidro abriga uma maceta portuguesa e um cinzel curto. O painel que está por cima tem um corpo anónimo com a farda dos prisioneiros dos campos de concentração e extermínio que o Reich Alemão produziu entre Março de 1933 e 1945 incluindo o conjunto de mais de 100 campos de concentração que hoje chamamos genéricamente Mauthausen. Nesse desenho a vermelho atrás da figura lê-se a palavra COLTAN uma abreviatura dos minérios Columbite e Tantalite que hoje produzem modernos campos de concentração e extermínio na Républica do Congo, Ruanda, Afeganistão; e desestabilizam governos legítimos de países como a Colômbia, o Brasil,  a Venezuela...

Inauguração da exposição LAPIS fotografia do António Delicado


























Da esquerda para a direita, "A pedra-que-abana",  "O Templário" escultura do António Diogo Rosa "Álvaro Góis, Rui Mamede", os desenhos "Escopro" e "Maceta Portuguesa" e a escultura Bernardo Soares. A folha na diagonal reproduz um texto do Livro do Desassossego que diz assim:


Uma pedra é mais interessante que um operário.
A dor de uma árvore que o vento abata quão mais nobre é que a angústia de um jornaleiro que morre de miséria! Ao menos morre silenciosa, salvo o (...) de quebrar-se e o baque de cair morta. Não morre dizendo asneiras sobre capitalistas exploradores e reivindicações sociais. Não é suja nem feia... E um operário mal trajado raras vezes o não é.
A funda comoção que é a alma estática dos rochedos é mais verdadeira e bela que toda a teoria socialista ou anarquista.
A canção de um rochedo pode ser asneira, pode ser que não exista. Mas as teorias humanitárias são asneiras com certeza, e sobre serem asneiras sociológicas, são asneiras de análise psicológica.
Mesmo que um monte pareça frio sempre há-de haver um poente que lhe ponha uma auréola de beleza e alheamento. E que poente nos vai dourar para pitoresco um estúpido que moureja para ganhar numa fábrica o pão de cada dia? Que ânimo orna de novidade um sub-homem que (...)
O poeta busca a beleza, não busca a (…)
E que beleza tem a dor dum proletário? Ainda quando é a dor de um aristocrata chorando...
Uma manada de operários! Se a gente [...] com demorada intensidade nauseia-se. A dor de uma mulher do povo! Uma berraria indecorosa que um ouvido musical não pode ouvir.

A inauguração da Exposição LAPIS fotografia feita pelo António Delicado.

A galeria tem uma sala maior e uma pequena sala. Na sala mais pequena foram montados os desenhos.
Com a vizinhança das esculturas do António Diogo Rosa foi necessário integrar as especificidades dos discursos individuais, unidos pela temática de fundo que dá nome à exposição, LAPIS, a pedra.
Aqui vêem-se ao fundo no chão as pedras que simulam uma mariola e o papel onde escrevi o texto aqui reproduzido no dia catorze. Nesta altura ainda me faltava desenhar sobre o papel de cenário a ilustração que daria coerência ao monte de pedras que simulava uma mariola e a sua explicação. Do lado direito o desenho maior é "A pedra-que-abana" do lado esquerdo o "Ergueram muros e "Familia". 
Em primeiro plano o Bernardo Soares do António Diogo Rosa.












LAPIS - Do catálogo, o texto apologético que não fica bem a este modesto autor.

Mas como dizia não sei quem: 
"Vamos lá deixe-se de tanta modéstia, afinal você também não é assim tão importante."

LUÍS FILIPE GOMES

Desenha compulsivamente desde criança, o seu mundo estruturado no desenho e na escrita integra a cultura tradicional e a cultura erudita nos seus mais variados aspectos. Admira tudo, tudo é digno da sua atenção, desde a forma como se esculpe em pedra, como se canta uma canção, como se coze um pão ou como se toca um piano, nada escapa à sua investigação a que dedica longas horas de estudo. Naturalmente é uma pessoa com uma vasta cultura e uma criatividade ilimitada, duma grande generosidade na partilha das suas ideias e conhecimentos. É um artista multifacetado que pelas circunstâncias da sua vida é obrigado a dividir o seu tempo por várias actividades profissionais, o que o leva a expor poucas vezes o seu trabalho, no entanto depois de um período de formação em que frequentou o Curso de Desenho do Ar.Co, fez o Curso de Gravura em Metal da Galeria Diferença,
frequentou o Curso de Desenho da Sociedade Nacional de Belas Artes, entre outros, tem participado em várias iniciativas interessantes, nomeadamente a famosa caixa de Arte de homenagem a Ernesto de Sousa PIPXOU, Ilustrou Livros e Revistas, os seus desenhos foram frequentemente publicados e premiados no DN - Jovem do «Diário de Notícias». Em 2017 Menção Honrosa da SNBA. Desenvolveu ainda vários projectos ligados à gravura, tendo participado na 8ª trienal de Chamalieres, Mondial de L’éstampe et de la Gravure Originale, em França.
Os seus trabalhos são publicados diáriamente no seu blog luisdesenha.blogspot.com
Está representado em colecções particulares em Portugal e no estrangeiro.
Tem obras em vários municípios e instituições do país: Correios de Portugal, Ministério das Finanças, CM Arruda do Vinhos, MUSA Sintra, etc.                                                                                                                                                         Beatriz Cunha, Fev. 2019




sexta-feira, 15 de março de 2019

LAPIS - O Texto do catálogo da exposição.


LAPIS em latim significa pedra.

LAPIS são pedras.
A designação pedra vem do grego e está mais ligada ao conceito de rochedo, rocha de maior dimensão.
Para o bem e para o mal as pedras acompanham-nos desde que nos identificamos enquanto humanidade. De pedra são os abrigos mais antigos e os bens mais duráveis com os quais podemos classificar as nossas origens e a nossa identidade cultural mais remota: raspadores, facas, machados, pontas de seta. Muitas destas pedras foram talhadas em pederneira, o sílex; outras em obsidiana, um vidro vulcânico que pode ser tão cortante como o melhor aço. Não pensando só em pedras duras o ocre que é uma argila vermelha ou amarela foi usado nas culturas de todo mundo na África do Sul há 160 mil anos, aqui no território de Portugal há 24500 anos, na mortalha do Menino do Lapedo, uma criança resultante do acasalamento entre um homo sapiens e um homo neanderthalensis
 Os italianos ainda hoje chamam ao lápis matita seja qual for a sua cor: lapis haematites é uma pedra conhecida em português por sanguínea, hematite é o nome que os gregos davam à pedra cor de sangue e era uma pedra de desenho avermelhada muito usada nos desenhos da renascença. O lápis-lazúli é uma pedra azul semipreciosa e era triturada até ser feito um pó fino de cor azul denso e profundo, cor também conhecida por azul ultramarino.
Há menos de um século as crianças quase não tinham cadernos, o papel para escrever era ainda caro. Nesse tempo aprendiam a escrever em pequenas pedras emolduradas em madeira de pinho. Nessas pedras de ardósia, um xisto negro e de grão fino, escreviam com lápis, também de pedra feita de um xisto cinzento mais brando.
Até há bem pouco tempo as equações matemáticas mais complexas e os cálculos mais demorados eram escritos sobre grandes quados de fina lousa com umas pedras cilíndricas naturais chamadas cré, greda ou giz que por conveniência passaram a ser feitas industrialmente a partir de gêsso e calcário.
Desta origem latina, LAPIS derivou uma família inteira de palavras. Encontram-se no nosso vocabulário termos como lápide: uma pedra funerária inscrita que assinalava ou cobria um túmulo. Ou lapidar com vários significados: no melhor deles significa uma locução digna de ser registada em pedra, no pior dos casos como sinónimo do acto de ferir ou causar a morte a alguém a quem se atira pedras.
Rodeados por LAPIS estamos ainda hoje: Uns literalmente digitais como a ponta dos nossos dedos nos visores tácteis dos computadores de bolso, outros virtuais como o nosso olhar a distância apontando o infinitamente pequeno ou o infinitamente grande.
Esta exposição pretende fazer a ponte entre a idealização e a possibilidade de concretização. Nela existe a solidão da antevisão, a responsabilidade do projecto, e o risco do erro.
Do melhor e do pior do que a humanidade é capaz fazemos a nossa reflexão. Nestes tempos paradoxais através desta exposição LAPIS tentamos separar o que é esforço do que é trabalho forçado. A perplexidade perante a natureza agreste e a construção do que é paisagem e beleza. Modestamente aventurámos fazer caminho de encontrar motivo para a Arte enquanto justificação do gesto e da razão da própria existência Humana.


quinta-feira, 14 de março de 2019

Malhões e mariolas - LAPIS- A exposição a inaugurar amanhã. Quando as pedras se amontoam.



Quando as pedras se amontoam sinalizam sempre alguma coisa. Podem ser marcos de limite de propriedade, podem ser orientações de bom caminho, podem ser ex-votos de agradecimento por graça recebida por um crente. 
Nas serras em que o solo é rochosos e mesmo a passagem continuada de pessoas não deixa pista de caminho pisado por onde seguir, é costume empilhar pedras para indicar a direcção do trilho.
Estes amontoados de pedras são no seu objectivo como as placas de direcção das modernas estradas. São sinais de orientação e destinam-se a salvar vidas. 
São construídos com base em algum ponto mais elevado e visível a distância. Podem ter só 3 ou 4 pedras, ou podem erguer-se alguns metros como uma torre.
Nas mariolas ou malhões, há pontos de mira que indicam o sentido para um e outro lado do caminho a seguir. Servem para dirigir o olhar para outra mariola que dali se avista, ou no caso de a visibilidade ser nula, se houver nevoeiro, chuva, ou falta de luz do dia, poderem ainda orientar a caminhada.
Esses pontos de mira podem ser "petadas", sulcos ou cruzes que se avivam raspando musgos e líquenes quando por lá se passa e podem estar descobertos ou tapados por outra pedra que se destaca do sítio onde está a marca.
Em alguns malhões há marcas que indicam até onde chega a altura da neve e atingindo um nível ou outro, indicam se é possível continuar a jornada ou se é melhor voltar para trás. Noutros há indicação para água de nascentes que nunca secam mesmo nos anos mais secos.
As marcas de ex-voto são notáveis por pedras que intercaladas não fazem parte da orografia local, uma pedra de granito numa terra de xisto, uma pedra polida do rio de cor diferente do local onde está depositada. Indicam que alguém carregou essas pedras como oferta de esforço sacrificial.
Por todas estas razões não devem ser empilhadas pedras sem saber o que se está a fazer, nem devem ser alterados ou destruídos montes que se encontrem feitos.