segunda-feira, 25 de março de 2019

Ao Arquitecto Manuel Graça Dias.



Manuel,
esta mania de escrever coisas mortas
é como escrever em papel velho 
parece pouco asseado 
e rascunho do que poderia ter sido
No outro dia vi "A Mulher de Trinta Anos " 
que a Dóris traduziu e pensei
que tinha de ler as palavras
que ela dera ao Balzac...

Estou a ficar piegas,
saber que não estás
é saber que não há colunas
no remate da Praça
e sentir que o Tejo passa
Sem Terreiro nem Paço,
e leva as águas
só comércio e sem remédio.

Sabes que contigo aprendi
que a fealdade é uma palavra normativa
para a incapacidade de perceber
é um Amtssprache malévolo.
A ergonomia das construções
é a harmonia da necessidade
É o que o fazer ensina a quem faz.
Não há arquitectura popular nem arquitectura erudita
Só há arquitectura que dura e se refaz
da pedra sêca ao arco perfeito
o abrigo e a luz
o ar e o refúgio
o largo e a comunidade
A terra, a água, o fogo, a imaginação
A mão
E a liberdade de poder começar em outro lugar.

Olha, afinal o café no jardim do Príncipe Real terá de ficar para depois.




5 comentários:

Justine disse...

Comovente e muito belo

Bernardette Capelo-Pereira disse...


Poema belissimo, homenagem de quem (e a quem)
sente a arquitectura da vida.
Continua, Luis!

Luis Filipe Gomes disse...

Obrigado JUstine.

Luis Filipe Gomes disse...

Obrigado Bernardette.

Teresa Durães disse...

Gostei bastante!