terça-feira, 29 de outubro de 2019

Para Ana Cristina Cesar sem saber porquê e para quê, como se fosse poesia. "Coisa sem princípio esta de começar no fim!"






























Coisa sem princípio
esta de começar no fim!
Direi então
que me atraem os poetas suicidas,
como um lume inexplicável na noite escura.

Por fotografia
quem poderia imaginar
que as auroras boreais têm tamanha agitação?
ou que tal como miragens,
existem fogos fátuos? …e pirilampos !?

Ando a ver mal, chora-me o olho direito,
que não é o olho dominante,
o da mira do caçador
e vejo mosquitos
cadentes, como meteoros lentos.

-por uma vez ouvi um meteoro
restolhar no céu nocturno
frigindo o ar em artificiosas cores-

Houve um tempo em que eu
soube  dizer ao olhar para as chispas
com que a rebarbadora pulverizava o aço
qual a sua percentagem em carbono.
Um pirotécnico que saiba dar cores à sua pólvora
saberia a composição química da minha estrela cadente,
como eu soube logo não ser estrela
porque as estrelas não caem nem fazem ruído
e se perpetuam no céu para lá da sua morte.

Nada desejei da raridade daquele avistamento
e o que desejaria?... 
a não ser talvez saber
a distância entre mim e aquele meteoro
que possibilitou a proximidade de entendê-lo soar;
ou talvez que nome dar àquele roçagar luminoso
que esfrolou crepitante o breu,
uma deflagração sem estoiro,
um ruflar de vestes, antes do silêncio.

A percentagem de carbono é uma forma de dureza
que perpassa no aço 
e nos traços do lápis com que desenho,
é aparente e invisível
como os mosquitos dos meus olhos o são para outros
por serem sombras na minha retina  
e é invisível por ser uma organização estrutural microscópica
que só se revela quando depois de polir uma amostra do aço
até ele se tornar um espelho 
se macula a sua superfície cegando-a num ácido.

Os aços possibilitaram as construções em grande altura
o arranha-céus primordial tinha só dez andares
depois aumentaram mais dois,
era pertença de uma companhia de seguros,
mas não se atreveram a que chegasse aos treze.
Nenhum edifício deveria ter treze andares.
e se a sofreguidão subisse além do alcance da imaginação
que o bombeiro Conrad Magirus  pudesse ter 
para uma escada de salvação
o 13º andar não deveria existir.
Como nos edifícios em que se passa do 12º para o 14º andar.

Ninguém sabe quantos os degraus da escada de Jacó.
Sabe-se que do Céu desciam e subiam anjos por ela
como poetas que cristalizassem num sonho
a dor real do sofrimento alheio.

Nenhum edifício deveria ter treze andares
e eis tudo.



Luís Filipe Gomes
Outubro de 2019


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